Eu observava uma árvore hoje. O
vento batia nela, balançando suas milhares de pequenas folhinhas e suas
centenas, talvez milhares, de florezinhas amarelas. Ela balançava calma e
resoluta na certeza de que balançar ao vento era a melhor e única coisa que ela
poderia fazer em sua sólida e determinada resignação. O vento também me
atingia, mas como eu o sentia? O vento me balançava? O vento me acalentava? Me
ninava? Eu ajeitava o cabelo toda a vez que o vento me bagunçava. A árvore não.
Eu queria tanto ser aquela árvore. A árvore não sente o que eu sinto; essa
mistura de óleo de motor quente e essência cítrica, ou lavanda, em meu coração.
Essa coroa de espinhos decorada de alecrim e carvão. Esse vapor de pinho. Esse
cheiro de excremento humano derramado na fundação da existência terrena. Essa incrível
vontade de sumir de vez, para sempre, e aparecer daqui alguns instantes. Sumir,
deixar de existir e logo voltar a viver. E nesses milissegundos de um átimo de
tempo, apenas não existir. Existir me cansa. Me cansa demasiado. Me cansa mais
do que imaginas. Eu fiquei ali querendo ser aquela árvore, enquanto fumava meu
cigarro. Eu pensei que eu queria outras coisas também. Queria escrever, queria
ser calmo, resoluto, e possuir tranquila resignação tal qual aquela árvore. Queria
não ser aquela saudade toda de tudo. Eu queria ser menos dramático, queria
sofrer menos, queria não sentir tanto as coisas. A árvore não se cansava e eu
estava tão cansado. Quando eu fosse a árvore eu seria, apenas. Eu não seria
feliz, nem triste, nem melancólico, eufórico, didático, patético, previsível,
bobo, lindo, feio ou negro. Eu seria. Apenas seria. Eu não seria solitário,
pois a árvore não é nada além do que é. Eu não teria meu peito esmagado por uma
solidão que apenas um utópico amor de domingo poderia me salvar. Eu olhei pra
mim mesmo no gigantesco espelho do mundo e me vi atarefado, ocupado, culpado,
morto-vivo. No gigantesco espelho do mundo as pessoas passavam para lá e para
cá, com grandes pretensões e talvez um ou dois sonhos. O gigantesco espelho do
mundo é como um lago de infinito horizonte que dependendo do ângulo visto dá a
sensação de pouca perspectiva. Mais se sobrevoares sobre o gigantesco espelho do
mundo verás as pessoas indo e vindo, existindo; todas conectadas por frágeis
fios invisíveis; todas sendo eu ou nós. Eu cheguei só ao gigantesco espelho do
mundo e ninguém parece perceber minha presença, e daí eu fico olhando o ir e
vir das pessoas. O infinito ir e vir das pessoas. Uma vez estando na superfície
do espelho, caminhei até a margem oposta, por eras e mais eras e nada nem
nenhuma coisa familiar me ocorreu, a não ser todas as pessoas e seus ires e
vires. Meu corpo sentia frio, fome e sede. Mas nada havia, além do gigantesco
lago azul celeste. Quando eu cansava de andar me deitava em sua superfície e
boiava em suas águas vítreas por segundos ou anos. Eu caminhei atrás de algo cruzando
o gigantesco espelho do mundo. Quando enfim na margem oposta, havia uma pedra
enorme e antiguíssima, pois tinha crostas de limo sobre ela. Esse enorme objeto
sólido pairava plácido sobre a superfície liquida do gigantesco espelho do
mundo. Encravada e firme. Eu lembrei de ti, e do meu cansaço. Eu lembrei de
nós, da humanidade, e me prostrei de joelhos ao lado da pedra, exausto de
caminhar por tantos séculos, e toquei com a palma da minha mão a superfície
gelada e rochosa. Nada aconteceu. Por um instante ou séculos nada aconteceu.
Não sei ao certo o que iniciou o evento, talvez um revés de uma gota de saudade
subindo do lago, ao meu rosto, mas não sei ao certo; o vento, o mesmo que
balançava a árvore, soprou de norte a sul, e desfez o rochedo derrogado em
milhões, talvez bilhões, de dentes-de-leão coloridos, cada um deles da cor do
nosso amor. Enfim, finalmente. Do cor-de-rosa ao púrpura, do amarelo sol, e do
azul mar, as pequenas e numerosas partículas voaram com o vento para talvez semear,
através das águas, os sonhos de toda a gente, na minuciosa conexão humana. Dentro
de mim existe uma árvore, mas eu ainda não a encontrei, pois ela não é ego, ela
apenas é.
Descendo pelas brancas falésias de Albion, eu
pensava em nada. Algumas poucas coisas pululavam em minha mente, de natureza
aleatória e cíclica. O veículo me conduzia por reinos e destinos diversos. Por
quais caminhos e por onde iremos parar talvez seja uma pergunta muito complexa.
O clima era quente e ameno e as pessoas se espremiam na charrete. Eu pensava
que deveria estar pensando em algo. Que tudo que havia acabado de acontecer
deveria me avivar as memórias mais profundas. Porém, nada. Nada me ocorreu por
um bom tempo. Eu ficava pensando em Dom João V, e o que ele estaria pensando no
momento. Talvez em alguma bobagem, frívola, que imediatamente o levaria a
preguiça, ao tédio, e ao desejo em freiras do convento da capela real; que se
entregavam por obrigação, gemiam, suavam e faziam prole; que tornavam-se
freiras que por sua vez davam a luz a novos filhos bastardos que habitariam o
palácio do marquês de Louriçal, na zona Palhavã. Pensamentos encíclicos em
caminhos bifurcados, que bifurcavam novamente mais à frente, de novo e de novo,
cento e noventa e seis vezes, retornavam; e eu me dava conta do labirinto em
que habitava. Arrebatado pela calma resignação, eu cumpri boa parte do caminho
sem que ao menos um pensamento persistisse em minha cabeça; fiquei pensando
talvez em por que o rio chamava amazonas, por causa do estado ou o contrário
era verdadeiro, num se-e-somente-se, talvez. O rio correu e desceu a
ribanceira, me atingindo com força. O tempo todo, todo o tempo. O tempo é
sempre. Comecei a reconhecer as veredas de minha mente cada vez que passava
mais de uma vez por um lugar, por uma porta gigante de carvalho maciço – que
atrás abrigava dois tigres em um saguão de pedra lisa; um laranja e um branco,
ambos rajados – por paredes sólidas e frias, por brumas elétricas. Reajustando
e recalculando meu caminho. Eu lembrava muito bem de um homem com feições de um
réptil quelônio, nariz gordo e com marcas do tempo, feito pequenos buracos,
quase careca e parecendo tediosamente caridoso. Ele ficou horas e horas – cento
e noventa e seis horas – falando coisas incompreensíveis a mim, outorgando,
constituindo, previsto nos ditames, incluso na minuta, inscrita no número dois
cinco quatro sete dois, mil vezes. Eu via a boca do homem mexer, eu via outro
homem sentado na mesa atrás, indiferente ao mundo ao redor. Eu olhava você
chorar. Às vezes tossia. Eu não soube o que fazer, minha mente simplesmente não
soube.
A mente ia longe já. Estávamos os dois sentados
numa mesa em frente a um restaurante qualquer na Avenida Sarandi, em
Montevidéu, tomando uma taça de cerveja e apreciando o vaivém das pessoas,
algumas apressadas, outras calmas e sorridentes. Alguns grupos de jovens
passavam fazendo estardalhaço falando em castellano,
que soava como romance aos ouvidos. Nada fizemos para mudar o mundo naquele
instante, apenas existimos, lado a lado, neste fragmento de tempo. Acho que no
tempo anterior, que era o presente, também estávamos lado a lado. Existimos
para tudo de uma vez, numa esquina. Você parecia linda e eu parecia feliz; por
hora realmente devo ter acreditado em tal façanha de Deus e me julguei um
viajante do tempo. Nesse dia em particular, no qual vivia presentemente, porém
já estava incluso num passado truncado, ficamos ébrios, andamos feito loucos,
da praça da independência até o porto – comemos um naco de carne que assava ao
lado de grandes pimentões vermelhos e amarelos numa churrasqueira de um
quiosque em um mercado bagunçado e escuro. O som de um saxofone melancólico
soava no ar e um casal ao lado dublava baixinho “No importa la razon para amar te”. Uma sensação de choque elétrico
percorreu minha espinha e de repente vi, em apenas um dos meus olhos, uma flor
de papel crepom azul.
Você estava ao meu lado ainda, ou talvez fosse
mais um pedaço de passado truncado no meu presente, que dessa vez nem mesmo
sabia onde se encontrava. A flor de papel crepom azul era feita à mão por
crianças de rua que trabalhavam forçadas nos desertos da pobreza da América.
Não tinham valor. As flores de crepom azul são antagonistas de si próprias.
Frases aleatórias sobre teorias teológicas me recordaram da dualidade do mundo;
onde há um bom, haverá um mal, onde há um tigre, haverá um dragão, para cada
defeito teu, há uma qualidade que os anulam, e no céu deverá tudo ser
balanceado em perfeita harmonia, pois os próprios sábios da babilônia já
preconizavam tal pensamento desde o século III antes de cristo. Dessa forma, eu
tive uma epifania, e me prostrei diante de tal; para cada flor de crepom feita
por uma criança de rua seminua e de rosto sujo, uma flor nos jardins da América
nascia.
Eu estava titubeante entre o passado e presente
entrelaçados entre si. Mas voltamos ao nosso papo, na Avenida Sarandi, porém de
canto de olho eu vi um homem velho abordando duas crianças e metendo no bolso o
pouco dinheiro que eu acabara de lhes dar. Eu me lembro que voltamos a nossa
hospedaria, naquele dia, que é hoje, e abrimos a janela que dava frente a
estátua do General Artigas. A noite ia alta e quente e nos amamos como dois
namorados, pois beijei-lhe a boca e disse que a amava, em seu rosto e em seu corpo,
enamorado. Eu lembro muito bem de cada detalhe, real ou inventado, daqueles
dias, que são hoje, o camaleão andando calmo nas terras agrestes dos jardins,
os cachorros de rua, o cachorro empalhado, o sol, o sol... O rio da prata, as
praias, o delírio, as bicicletas, o vento, o chivito com ovo extra. A flor de crepom sobreviveu à passagem
rigorosa dos dias, em uma pequena botella
de alumínio, no lado esquerdo do meu cérebro. Ela ficou ali parada, enfeitando
o ambiente e minha memória. Nossos amores passados, nossos próprios amores
passados, que foram agora. Nosso sangue latino-americano. Ela tomava sol e não
crescia. Ela não precisava de água. Mas eu me lembro do cheiro do ar, e de seu
perfume vez em quando, nesses dias de sábado ensolarado, que é hoje. Lembro em
como os sorrisos pairavam nos recantos bem cuidados de uma América quase
européia. Numa sonata alegre passei a ouvir: “Já não cantas, já não vibras, já nem existes mais, pobre de ti. Pois se
não existe em mim, pois se fugistes das agruras do meu universo, já nem existe
mais, em canto algum.” Pois assim é a realidade humana, pensava, de
expurgar o som o cheiro e o gosto, do tango da pele e da carne, e seguir.
O meu segundo momento de epifania me fez tremer
as pernas; por Deus, a dualidade do homem e da ciência, das partículas e das
ondas, das mitologias e da história; Haveria então uma flor de papel crepom
vermelha para cada flor de papel crepom azul. Eu sentei e chorei. Não de
desgosto ou descontentamento, mas de pura e inextrincável saudade.
Eu apertei a sua mão, mas não tive coragem de te
olhar. E segui. A flor de crepom azul eu trouxe comigo e a vermelha talvez
ainda exista, em algum lugar, mesmo que em um tempo diferente desse que lhes
falo. Talvez esteja, ou seja, desbotada, rasgada ou rabiscada com nomes e
telefones, corações transpassados por flechas e desenhos felizes. Talvez esteja
escorando uma foto de alguém. Talvez dentro de uma sacola, num fundo de
armário. Eu não sabia. A minha jaz em uma caneca de porcelana e eu por vezes
acho que é de verdade, porém não tem espinhos; tentei aguar-lhe uma vez, mas em
súbito lembrei que iria morrer com meu cuidado excessivo; lembrei que adubar
não era necessário. Ela jaz saudável e intacta, sem pegar sol, sem emitir odor,
sem atrair insetos, sem apodrecer, sem murchar nem secar. O lado mais bonito
das flores de crepom é que, apesar de falsas, não morrem.
A luz entrava pela janela, filtrada pelo vidro,
composta de uma mistura híbrida entre o luar e as luzes artificiais, fracas e
levemente azuladas. As suas ondulações de diferentes naturezas tocam-lhe a pele
e imprimem uma certa pressão fazendo com que a resistência da mesma a torne
ainda mais profana e ansiando contato. A linha de seu perfil, deitada dessa
forma, confunde-se com a de um tipo de animal, o animal humano, exalando uma
aura carmim. Inspira vagarosamente o ar como se quisesse sorver molecularmente
toda a atmosfera do momento, dentro e fora, dentro e fora, repitidas vezes sem
formato de invólucro qualquer. Os olhos, ora semi-cerrados, contrastam com a
pupíla dilatada desenhada em círculos concêntricos perfeitos, petrificados,
loucos e de doçura, num misto sem proporções fixas e definidas. O leve tremor
de seu corpo, quase imperceptível a incauto navegante, denota que adentrei por
entre as brumas do desconhecido, desbravo terras rudes e selvagens, que
escondem nada além do que queres esconder-me, num mistério rasgado e espesso,
que me enlouquece e me excita e me vive. Articuladamente respira pelo corpo,
morde minha boca com força e delicadeza, desliza sua língua hábil na minha,
enleiando-se numa fúria voraz, ora macia, ora tórrida, ora branda. E aspira-me
o torso, como se precisasse guardar minha essência em algum lugar intermediário
entre seu pulmão e seu ventre. Os sabores naturais de seu corpo necessitam ser
trasferidos quase que osmóticamente para os meus sentidos, e degusto deles e
você maléficamente retribui, gemendo baixinho, respirando curto e morrendo
devagar. Indocilmente me repele e me afasta para que a força que exerço seja
maior e meu corpo pese ainda mais sobre o seu, causando-lhe sensação de
submissão conquistada, cedida, permitida nas regras inventadas ali mesmo por
nós. Toco-lhe o corpo com devoção e desrespeito, juntos e entrelaçados, e seu
quadril move-se por vontade própria, buscando minha mais genuína ereção, composta
de desejo e impulso, prestes a lhe causar bem e mal, deixando-te cada vez mais
ávida e pulsante. Sinto suas cores, claras e pálidas, levemente brilhantes, e dentro
de ti a angustia aumenta e arrefece, espremido pela força de suas coxas, pela
combinação meticulosa de nossos movimentos, e acaba em catarse lenta e duradoura,
expurgando tudo que te – nos – fazia hesitar, destruindo os véus. E dentro dos
seus olhos eu vejo toda malícia que quer me ofereçer, e o mundo que goza-te, que
te celebra, é afortunado. Sou grato e desfaleço em ti, e a tua imagem junto a
complexos mosaicos coloridos formam um presságio de que recomeçar tudo de novo
é necessário, quantas vezes for preciso, pra te matar dentro de mim, só um
pouco. Congratulo-a, porém sei no meu mais íntimo que não me lê por completo. E
temes, és cauta e diferente, e mulher, um pouco minha ao menos.
De nascença sou paulista. Paulistano, termo preciso. Minha mãe também, nascida por aqui em algum lugar da zona norte. Ela me contava que quando criança lavava roupa no rio e eu fico hoje me perguntando que tal rio seria esse com água limpa, pra se lavar roupas. A cidade de São Paulo seria incrível se nossos rios fossem limpos, como Paris, como as vias européias em geral. Adotamos normalmente, dos europeus, só o que não nos vale. Minha mãe dizia também que quando moça, seu passatempo com as irmãs, era ir ao circo, e contando-me essas histórias ela fazia uma pintura na descrição, embaraçando as cores vermelhas e amarelas das tendas, com o cheiro dos animais e as apresentações dos Demônios da Garoa. E eu fiquei pensando um pouco, tecendo na minha imaginação, um cenário louco e bucólico, de trás pra frente, onde um palhaço, dando os braços para o ar e sorrindo maniacamente, cantava trem das onze e corria em direção ao público, onde uns riam e outros choravam, de espanto. Ela contava que naquela época era muito comum fazer festa junina nas ruas e ela passava bom tempo com as irmãs recortando bandeirinhas, que seriam presas a barbantes, e por fim enfeitariam os arcos de bambú que passavam de um lado a outro na rua. Fogueira grande e quentão, frio de época. Vez em quando, por aquele tempo, aparecia o tio dela e estacionava o caminhão de carga, sujo de barro do Brasil, e ficava um dia ou dois. Esse homem era tido como um dos mais brutos de toda região e fazia fama com sua crueldade e vilania. Lembrava minha mãe que um dia ele arrancara a orelha de um homem com um único soco, e eu dizia que aquilo era impossível, mas ela replicava, dissertando que seu punho tinha a força de um coice de burro chucro. Que imagem terrível e de triste solidão que fiz de meu tio-avô, temperada com dias de violência e aventura, nas estradas a fora ouvindo uma radiola velha e fumando cigarro sem filtro. E não me lembro ao certo, mas esse meu tio-avô, segundo minha mãe, tinha corpo fechado. Desses tipos que nenhum sincretismo atinge, ilê, ilê camará, nem despacho nem raiz de maniçoba, nada derruba tal cristão com suas rezas e seus guias. Não cheguei a conhecê-lo, nem a seu pai, meu bisavô, que era homem sovina e misantropo. As vezes fico imaginando que vingamos pelo tempo, ao sabor da sorte e do vento. O cenário todo posto em perspectiva de lavadeiras e donas de casa de visão débil pela neblina das cinco da manhã e pela ignorância do androcentrismo natural da década de cinquenta me traz qualquer coisa de familiar ainda. Ela diz sempre, baixinho e com carinho, que o que ela viveu de ruim não quis passar pros filhos, e sem saber me inclui gentilmente no abraço de sua sabedoria. A todos nós, em fato.
Meu pai vem de cima, como dizem, Pernambuco. Estado lindo, de Recife à Olinda, belezas e cultura, antigo e novo, cores dos carnavais e dos bonecos de gigantes de braços frouxos a pairar na multidão. Porém meu pai vem de região afastada no estado, alguma coisa perto da Bahia, onde antigamente era uma passagem dos missionários que pregavam para população ribeirinha. Uma semelhança com as histórias de minha mãe é o tal do rio, que meu pai me dizia ir pescar quando criança, de manhãzinha, quando o ar ainda não estava quente. Ele contava bem devagar das suas molecagens dos tempos idos, em que pegar goiaba do lado de lá da cerca era sentimento de liberdade, e que juntar três ou quatro amigos para passar a perna e derrubar a professora era motivo de riso solto, e valia a pena o castigo. Meu pai é de dia de São José e tem santo forte. Veio ao mundo numa casa de taipa na beira do rio, como o caboclo das matas, e criou uma fita ligando sua origem até São Paulo, fita acetinada escrita Nosso Senhor do Bonfim. Criou cinco filhos e trabalhou por sete homens, amou por vinte e cinco. A mãe dele disse que nenhum cobertor é curto para os nossos corações quentes. É um algo de dar, dar muito, as vezes até sem sinceridade. A mãe dele dizia que ele nasceu tão rápido que ninguém percebeu. Ela estava sozinha na casa, o marido na lida, e pediu pro meu pai buscar um pouco de água de rio e quando ele voltou já tinha nascido. É confuso, mas é estória. Minha vó tem as mais insólitas, inspiradas talvez em algum escritor de cordel que se perdeu nas tramas do tempo. Certa feita, contava ela, na beira do rio ela viu uma dança de peixes pratedos que voavam por cima das águas, rente a superfície, e eram brilhantes à luz da lua. Na escuridão da noite era possível ver a silhueta de um homem, na margem oposta, tocando uma música de feitiço no acordeão. No dia seguinte encontraram milhares de peixes à margem do velho chico, que foram coletados com a alegria esperançosa do milagre. E eu fico pensando que minha vó é qualquer coisa como de outro mundo, mistura de coisas, pimenta dedo-de-moça vermelha e graúda sobre tábua de madeira rústica. É doce, severa e diligente. Diligência que meu pai herdou. Acho que talvez eu tenha falhado nesse ponto, mas sem querer meu pai ensinou-me a maior lição, sobre a segurança de nossos atos pensando no futuro. E me envolve com sua matuta solidez.
Pensando não tão longe, eu me via correndo descalço nos quintais de cimento queimado. Tínhamos uma árvore de tronco apodrecido, que durante a primavera despencava de coquinhos amarelos, bem redondinhos, minha mãe dizia pra gente que eram venenosos. Claro que um dia eu comi um, só pra verificar a veracidade do dito. Tínhamos um cão. Tínhamos um tanque de pedra. Tínhamos aranhas, muitas aranhas. Tínhamos uns aos outros. Tínhamos uma serra de fita que meu pai usava para fazer espadas e carrinhos para nós, nas horas vagas, usando sobras de chapas de compensado. É simples, é muito simples. Fico pensando nas análises combinatórias que faço mentalmente sobre quantas pessoas são parecidas comigo, conosco, e as combinações são tantas e infinitas, mas ainda assim únicas.
O dia de hoje foi curioso, eu levantei e me banhei, tomei duas xícaras de café preto, o que talvez explique o bater dos meus dentes. Abri todas as janelas, buscando o ar da primavera e nele encontrar, por sorte, alguma identidade com algo que não mais possuo. Após alguns breves minutos sentindo o vento lambendo-me as faces eu pensei ter adormecido de novo. Foram três batidas suaves na porta que num primeiro momento me fizeram dúvidar da minha audição. Quem haveria de ser? Abri. Pedi que entrassem. Meus fantasmas do passado vieram me visitar hoje, bem cedo, mas aos poucos vão se desvanecendo, com suas cores pálidas, roxas e verdes. Mas eu insisto, na minha solidão rasgada, para que fiquem, pois estou preparando um chá.
Tudo começou com uma conversa
despretensiosa entre eu e um grande amigo, enquanto tomávamos uma cerveja, e
falávamos sobre a vida e coisas do tipo. Era um dia de grandes conquistas, pelo
menos para esse amigo meu. Essa conversa despretensiosa era sobre o estado
transitório, ou seja, não permanente, da paz e da calmaria nas pessoas do mundo
moderno. Parece chato para uma conversa entre amigos, e talvez seja mesmo, mas as
vezes odiar o mundo por algumas horas e duvidar de todas suas crenças e
certezas, tomando algum álcool de preferência, nos faz sentir melhores para
seguir adiante. Pois bem, não divergindo do assunto, estávamos falando sobre a
paz, e lhe garanto, como garanti ao meu amigo em nossa conversa, que o ser
humano não busca paz, e por vezes até a rejeita ou adia. Isso causou-lhe uma
certa perplexidade, que pediu mais explicações, pois como não haveríamos de
buscar a paz, se esta traria igualdade, sem vítimas de guerra e sobretudo com oferta
de recursos a todos. Eu lhe disse que devemos pensar no ser humano como ser
inquieto e pensante. O ser humano é único bicho que se exercita por conta
própria, enfrentando academias lotadas, e ainda por cima pagando por isso,
apenas para melhorar a aparência. O ser humano possui diversos passatempos,
filmes, teatro, jogos, cartas, videogames, internet,
redes sociais, sexo recreativo, imaginação, que em parte atenua o tédio das
nossas existências. Porém, quando esse tédio chega a níveis alarmantes, o ser
humano precisa perturbar o ambiente, causar intriga, irritar, provocar e
agredir, sem nenhuma outra razão a não ser espantar a pasmaceira, mudar o
cenário da quietude, varrer a estagnação. E com isso fazemos surgir o risco e
conseguimos dias de mais aventura. Como já dizia Eça de Queiroz “É a paz que, dando os vagares da imaginação
- causa as impaciências do desejo”. E, de fato, isso pra mim é um mantra e
já foi repetido muitas vezes anteriormente por diversos pensadores de grande
porte como Vergílio Ferreira e Dostoiévski. Porém, me intriga em fazer
uma conexão deste comportamento com a própria evolução da espécie humana. Vejamos
um claro exemplo, se o desejo mais interior do ser humano não fosse a guerra,
não teríamos ambições, o mundo seria um único império, e ouso a dizer que
grandes impérios nunca seriam desfeitos, pois da inquietação e do desafio vem a
quebra do jugo da escravidão e dos cabrestos e dos tabus. A paz é estado ilusório,
ela não existe de fato; existe como conceito ou ainda como algo a ser alcançado,
conquistado, como um Éden, sentar num morro verde ao lado de um cão alegre e
olhando o céu azul, balançar na rede e sentir a natureza beijando-nos a face. A
paz é para ser conquistada. E uma vez conquistada o que vocês acreditam que acontece
levando em consideração nossa natureza? Nós não gostamos de conquista, mas de conquistar.
E logo em seguida, outra guerra perturba-nos a alma. Não seria então um estado
evolutivo de todos nós de buscarmos sempre a própria degradação para
ressurgirmos melhores, mais adaptados, mais pensantes, mais agudos, com mais
recursos. Sem a nossa inquietação nada seria como é, não teríamos os grandes
prédios, as grandes construções, as revoluções de classe e de credo e das
raças, não teríamos as grandes paixões, os furtivos adultérios, e não se entenderia
o poder libertador de se encontar miserável e ainda assim buscar dias melhores.
Inclusive nas áreas das artes e das ciências, as grandes produções e
descobertas advém de um periodo de guerra ou pós-guerra; a necessidade e a dor
move-nos. Um dos exemplos mais belos que eu posso citar é encontrado na figura
acima, uma obra de Pablo Picasso, chamada Guernica (Clique na imgem pra visualizar em tamanho grande). A pintura é de uma beleza
terrível, retratando o bombardeio sofrido pela cidade espanhola de Guernica em
26 de abril de 1937, por aviões alemães que apoiavam o ditador Franco. O
sofrimento causado pela guerra foi o combustível para criação artística de
Picasso, assim como foram suas paixões, suas esposas e suas amantes.
Seguindo essa dicotomia, após a
guerra ou turbulência os que foram derrotados se vestem de um sentimento,
indissolúvel, de tentar mais uma vez sua sorte, cara ou coroa três vezes,
melhor de três no zerinho ou um, revanche no baralho; os derrotados são os mais
inquietos, e os mais felizes em contraponto. Os vencedores, por sua vez, logo
necessitam de outro passatempo, pois a paz é enfadonha, aborrecida, sacal, é
muita marola, e pouca onda. Gostamos de
onda, de preferência enorme, impossível de domar, pois no desafio cresce o
sentimento dos conquistadores, de se vencer a si próprio, superar a si próprio,
vencer aquela corrida, aquela partida de futebol e de conquistar aquela pessoa especial.
Isso descarrega ondas de prazer imensas em nosso cérebro, dizendo-nos, como uma
mensagem bioquímica, que desafiar, e sobretudo desafiar-nos a nós mesmos, nos é
incrivelmente vantajoso. É daí que penso, é evolutivo, é o que nos difere dos
antepassados ou ainda de outros animais, não nos basta nascer, crescer,
reproduzir e morrer. As aulas de ciência básica para as crianças deveriam mudar
essa máxima, passando por cima de suas recorrentes hipocresias. Um modo mais
honesto seria: Nascer, crescer, batalhar e morrer. Reproduzir é opcional, ir à
batalha não.
E desse modo nossa conversa seguiu
por muitos minutos. Esse meu amigo hoje mudou o rumo da vida mirando em outros
objetivos, completamente diferentes dos seus iniciais. No caso dele, investir
em outra carreira e outros horizontes trouxeram muitas oportunidades de
crescimento e me senti orgulhoso e feliz por ele. Por um momento me veio na mente que deveria
fazer o mesmo que ele, e começar do zero e rascunhar tudo de novo, em novos ares,
cabeças e pessoas. Porém me assombra a idéia de me sentir vazio, oco e
ressonante, quando chegar lá, no novo alvo, no novo objetivo primordial. E
assim eu vou adiando um pouco e guerreando comigo mesmo até tornar-se inevitável.
A inevitabilidade das mudanças, contudo, é outro assunto, talvez mais complicado que esse.
“O que você disser, não diga duas vezes. Encontrando o seu pensamento em outra pessoa:
negue-o. [...] Apague as pegadas”.
Bertold Brecht
Não há ninguém aqui, meu bem, minha querida, fujamos. Sei,
claro que sei que não podes. O quê? Quem vem lá? Quem vem lá? Fique tranquila.
Estamos bem, só tomando um drinque, estamos cercados de pessoas. É perigoso
aqui, eu sei que é. Me dê sua mão. É claro, claro que sei que é inadequado, mas
podemos apenas disfarçar? Eles estão vindo aí, é melhor nos separarmos para o
bem, veja, cuidado. Me encontre no chafariz, ali à frente. O quê? Vais demorar?
Olhe, cuidado com quem falas, e o que falas, se lhe pegam pode ser tarde
demais. Disse alguém que estaríamos aqui? É claro que eu não disse a ninguém!
Ou tu achas que não mensuro consequências. O amanhã tardará a chegar,
precisamos de precaução, precaução e estratégia. Veja, estou indo, não é mais
seguro. Vês aquele homem atravessando a rua? cabelo baixo, meio louro, cara de
polaco, se chegando... Vá, vá de uma vez. Estou indo-me também.
Embora saiba que ela não vá falar com ele, eu aposto, tão
certo como estou dando passos agora que... Ah! bobagens, ande homem, ande.
Ninguém pode vê-lo, ninguém. E se acaso encontrar outros e outras no caminho?
Apresse-se, vamos. Um pé depois do outro, um pé depois do outro. Olhando pra
baixo, olhe pra baixo. Será que é vergonhoso? Será? O que pensas? O que mereço?
E tu, como vieste parar aqui? Chafariz, chafariz, chafariz... Mas que merda,
tinha que dar essa chuva. Ela não está aqui ainda. Medo mortal que me assombra.
Nos assombra. Acho que na verdade lhe assombra mais, não é, não é? Diga-lá,
diga por Deus, pelo Diabo!
Onde estavas, ninguém a
seguiu? Tens certeza? É, de fato, concordo contigo. É bom e prudente andarmos,
andemos. O quê? Quem lhe perguntou isso? Não, claro que não os contei sobre
isso. Ainda louco não estou. Mas é melhor mesmo, nem um pio. Boca de siri.
Estás ofegante, que sentes?, dor no peito, estás cansada? Eu também, ofego,
busco folêgo e a respiração vai rápida, vai sôfrega. Toma, pega um cigarro,
deves estar aos nervos. Dobra aqui, nesse beco, dobra aqui, é melhor. Não, é
claro que nada vai dar errado. Pula essas poças d’água e não se preocupe com os
mendigos, são inofensivos, venha, venha rápido. Oh, meu Deus, caíste! Que
acontece? Machucaste o joelho? Estás bem? Já estamos chegando, calma lá. Eu sei
que estás cansada, eu também, mas o que podemos fazer, além de fugir, fugir e
fugir. O quê? Você está pensando em... Não, é claro que não está pensando nisso.
Eles entenderiam? Não sei. E você pode se machucar feio com isso. Eu seguraria
na sua mão, como sempre, como sempre. Mas é o que queres? Não... Bom,
desconfiava a princípio. Então continuemos, embrenhe aqui nessa escuridão.
Tenha coragem, é o único jeito. Pulemos essa grade, pulemos. Ali está um
cobertinho, ninguém irá nos ver. O quê? A lâmpada? Me alcançe aquele pedaço de
pau. Pronto, resolvido. Não havia outro jeito, tive que estilhaçá-la, é por
nosso bem. Venha, chegue mais perto, está chovendo. Tome, vista minha blusa, irá
lhe proteger do vento. Não, eu não penso como você, acho que poderíamos sim,
sim poderíamos. Mas isso não importa agora. Venha cá, pois preciso tanto de ti.
Não há ninguém aqui, estamos seguros, me beija, me beija agora.
Enquanto passava debaixo de uma escada sempre pensava em
superstições bobas. As bobagens do mundo atraem demais. É nossa fuga do óbvio.
Da obviedade que está logo ali na esquina e não queremos encará-la. A obviedade
de que somos poeira, pó, flagelo e desilusão.
Encontrou um gato preto, lindo animal com suas patinhas
fofas, aquelas almofadinhas que ficam embaixo de cada “dedo”. Fuça triangular
gelada e a língua áspera a se lamber todo. Já logo pensou em mal agouro. O gato
branco não traria a mesma impressão.
Andava na rua e a chuva leve caia-lhe sobre os ombros e
tilintava em sua fronte. Cada gota que caia sofria o impacto do corpo duro e
espalhava-se em mil outras partículas-gotas.
Não, não há beleza nisso, é só a água caindo meu bem. A água que vem de
nuvens que parecem confortáveis pra se dormir o sono de uma mente cansada.
Toquei sua mão hoje,
estava morna, nem quente nem fria, não suava, fui lhe dar um afago e
escorregar meus dedos em sua palma, mas você veio com um aperto de mão firme e
pulso duro, como aqueles que se dão em acordos comerciais.
Por que sentes tanto medo, menina, por que não apenas sermos
bons e felizes um pro outro. Por que perder tempo, já estou partindo e talvez
sabe-se lá quando volto. E se nem sequer voltar? É a estupidez humana de achar
que existe amanhã. O mistério velado do amanhã que causa dores na barriga com
uma revoada de passáros farfalhantes.
Sinto-te forte, decidida e derrogada. Enfim, sobre uma
máquina fabulosa em formato de animal selvagem, oca por dentro e movida a
carvão e vapor estão nossos sonhos. Os sonhos são mutantes e dinâmicos. Eu não
a quero. Talvez nunca quis. Te quis muito e talvez mais do que tudo, te quis
por perto para aplacar minha loucura e meus devaneios. Te quis leve e te quis
mais que uma amiga, para me deleitar em sua boca, para me-te fazer bem.
Subjulgado a formato pré-definido, em casa e aprisionado. Não
se aprisiona o ar em um vaso hermético, pois as paredes nunca são seladas o
suficiente, e invariavelmente irá difundir pelo desejo de fazer parte do todo,
da atmosfera. E ser respirado, ser útil, ser integral.
Quando aquecido por uma chama o ar torna-se menos denso e
voa alto, e já nas alturas resfria. Resfriando desce e aquece-se novamente para
voar mais uma vez. Denovo e de novo e
novamente, num ciclo infinito.
O calor bom e a leveza. É só isso. Depois se vai, voando
solta.
Uma máscara diabólica me sorri como que dizendo “Estás só!”.
Eu não me importo, pois enquanto tivermos força, enquanto a terra girar em
torno do sol empurrada pelos desejo dos deuses, pela força motriz da manivela
inescrupulosa de Atlas, e meu estado ébrio, e minha cabeça esfumaçada pelo
vigésimo cigarro seguido, e meus dedos puderem se mover para expurgar meus
demônios com a violência das minhas palavras, estarei em paz.
Estava
sentado em frente a seu computador ouvindo música, com fones de ouvido a prova
de som, sentado na sua cadeira de escritório, aquelas com rodinhas e estofado
azul. Pela janela via alguns jovens fumando maconha nos bancos da praça.
Entendia que aquele ato era quase como que uma aventura pros maconheiros,
viajar sem ser pego pela polícia. Estava conectado pela vigésima hora
consecutiva no seu perfil de rede social. Social? Vá entender. Encarava aquela
atividade como algo normal, como que estar conectado com os seus “amigos” o
tempo todo. Certa feita encontrou um amigo na rua, com o qual falava muito pela
internet, e a única coisa que disseram foi “Ah, eu vi que você curtiu a foto
que eu postei...” “Aham, foda!”. O silêncio brutal tomou conta após isso. A
vasta rede de pessoas com as quais estava conectado mal encontrava no seu dia a
dia. Perder o contato virtual era difícil. O contato virtual era algo como que encaixotar
pessoas que um dia foram importantes, que fizeram-no rir, que abraçara... mas
não é assim a vida? Desejou certa feita que fosse possível apertar um dos
botões a fim de materializar determinada pessoa de sua rede social, em vão
sabia que estava desejando utopias. Tal qual quando, cansado de esperar digitou
em um buscador na internet “Onde ela está?”. Buscou também “o que ela está
pensando?”. Os milhões de resultados nada correspodiam a sua realidade, porém
existia algo doce dentro dele que dizia que em breve tal recurso estaria
disponível. “O que passa na mente dela?” BAM, em 0.07 segundos, milhões de
resultados, pesquisados diretamente no alvo desejado, extraídos da mente do
objeto de seu desejo. Surgiriam páginas e páginas com o conteúdo do tipo
“Preciso levar o cachorro na rua” ou “Que tédio, queria que alguém me ligasse”
ou ainda “Estou com medo do que irá acontecer, afinal”. Sim, sem sombra de
dúvidas existirá um dia que essas tais ferramentas estarão disponíveis. E aí
nada mais o impedirá de ser feliz, pois terá acesso irrestrito a todos os
segredos mundanos e do interior mais íntimo da alma humana. Terá ainda acesso a
informações do tipo “devo eu levar tal situação adiante?”. O mundo virtual terá
todas as respostas aos mistérios bobos e frívolos da humanidade e de seus
intelectos limitados. Uma vez que tenha olhado uma foto compartilhada na sua
página, os comentários mentais feitos acerca da mesma serão instantaneamente
registrados e publicados. Tal fato
causará um alvoroço e por fim quedará a hipocresia. Falar-se-á de tudo e de
todos exatamente o que se pensa, através da manifestação de seus mais sinceros
pensamentos. E talvez a mentira acabará, findando o gracejo, o flerte, a
amortização, a empatia, sobrando o torpor. Uma máquina esganiçada começará a
berrar quando quiserem apagar os registros de seu perfil, pois a coletânea de
tais dados possibilitará traçar o seu perfil psicológico auxiliando melhor a
venda de produtos direcionados aos seus individuais alvos. E sem perceber
entraremos como loucos dentro dos carros a procurar um recanto, isolados do
mundo, onde só o eu, o computador e as linhas tênues e invisíveis que nos
conectam serão importantes. E o toque, e o velho, e o cheiro, e a camaradagem,
e a mentira velada, e a flor sépia do amor, e as tórridas paixões, e os
burburinhos quando uma mulher passa, e a fina elegância de um violão tocando
Tom, e os livros impressos, e a morte, e os bebês e as crianças, e a sua compania,
e o teatro da traição, serão coisas do passado. Enquanto o mundo gira num
furacão rumo ao esquecimento.
Olhando os acessos frequentes do
meu blog, tenho me deparado com algumas pessoas que entram por aqui, através de
uma busca no google sobre “teoria do flogístico” “teoria do flogísto” e similares.
Senti a necessidade de escrever brevemente sobre isso, mais como exercício
pessoal de saber qual a função desse blog na rede. Na verdade a função dele é
muito limitada, uma vez que eu tenho em média 6 acessos por dia (muito ruim,
né? Haha). E do total de acessos, quase 30% são de pessoas que encontram meu
site por ferramentas de busca on-line, como expliquei brevemente acima. O fato
é que, as pessoas que estão a busca do conteúdo sobre a desbancada teoria do
flogístico de Stahl, sentem-se em um lugar que aparentemente nada tem a ver com
a tal teoria, com textos, curtos e outros mais longos, sobre a vida o universo
e tudo mais.
Então vamos por partes. A teoria
do flogístico é uma teoria desenvolvida por George Ernst Stahl, por volta de
1650 e alguma coisa, que dizia que todos os corpos combustíveis (leia-se, tudo
que pega fogo) eram dotados de um elemento chamado flogísto, que seria liberado
ao ar, após sua queima. Os materiais orgânicos exemplificavam muito bem essa
teoria, uma vez que quando se queima, por exemplo, uma folha de sulfite, esta
se reduz a cinzas (basicamente composta de carbono) de massa muito menor que a
original. Entretanto, existia um ponto fora da curva, os metais. Ao submeter
diversos tipos de metais a queima estes aumentavam sua massa, ao que hoje se
atribui a uma oxidação. O ponto é que os óxidos metálicos possuiam massa maior
que seu antecessor. Para explicar tal feito, incluiram na teoria o fato de que os
metais possuiam um flogísto que conferia massa negativa quando incorporados, e
dessa forma, ao serem liberados com a queima do metal, o que vocês acreditam
que aconteceria? Exatamente, o produto da queima, agora sem o flogísto de massa
negativa, possuia massa maior. Entendam que esse pensamento, como teoria, era
apoiado pela majoritária parte da comunidade científica. É obvio que a teoria
possuia falhas, mas na ausência de explicação melhor que lhes valesse, a teoria
do flogístico seguiu por muitos anos com crédito. Estamos em 1659, não se
esqueçam.
Desbancar uma teoria científica é
algo que demanda esforço, dedicação, trabalho insano, criatividade e
curiosidade no mundo natural. E normalmente, a nova teoria segue por muito
tempo ainda como filha bastarda, renegada e com poucos apoiadores.
O meu blog, ou esse rascunho de
blog, versa exatamente sobre este contexto: teorias são, acima de tudo,
aproximações da realidade. Exatamente: aproximações. A mais sofisticada teoria,
inclusive a mais nova teoria sobre o bóson de Higgs, ou partícula Deus (para os
sensacionalistas da catastrofísica), é uma APROXIMAÇÃO de uma realidade ou de
um evento natural ou de um sistema. É inútil demandar esforços para saber a
natureza última de cada coisa. Qual a natureza última dos gases, estudados
desde os meados de 1750? Não há. Não existe pelo simples fato de que os
cientistas podem sempre fazer perguntas acerca de algo que já lhes foi
explicado. Um bom exemplo foi o desenvolvimento da teoria da mecânica quântica,
que começou com evidências desde o efeito fotoelétrico, de Einstein, e da
radiação do corpo negro, de Planck, até o desenvolvimento de modelos atômicos
de Bohr e, futuramente consolidado por Erwin Shcrodinger e Heinsenberg, entre
outros. Isso remete-nos ao fato de que uma teoria, que trata-se da prova experimental
de um postulado (idéia) gerada na cabeça de um homem (generéricamente falando,
para os sexistas de plantão), é dinâmica e mutável. Ela segue através dos anos
como cria de seus idealizadores e se perpetua, caso tenha devida importância.
No caso de Stahl, sua teoria foi desbancada por nada mais nada menos que Antoine
Lavoisier, considerado por muitos como o pai da química moderna e dono da
máxima: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Através
dos estudos de Lavoisier descobriu-se um elemento até então oculto as mentes
científicas da época, que possuia papel fundamental na combustão de qualquer
coisa: o oxigênio. Lavoisier constatou que a combustão de materia orgânica ou a
calcinação de metais provinha da interação destes com o oxigênio, presente no
ar que respiramos (de brinde ainda surgiu o estudo sobre a importância deste
elemento na respiração dos seres vivos).
Esse é o mote do que eu penso
sobre a ciência e sobre a interação humana com qualquer coisa. Olhando a foto
de capa do meu blog, um grupo de amishes que tive o prazer de fotografar em uma
viagem ao Niágara, estão olhando por um binóculo (desses que você põe uma moeda
de 25 cents e não ve quase nada). A vista na outra borda do Niágara é a cidade
de Ontário, no Canadá, cheia de prédios altíssimos, desenhando um skyline quase futurista. É de fato
assim? Não sei, mas é a impressão que se tem olhando deste ângulo. Talvez ainda
mais para os amishes, que possuem uma realidade muito diferente da vida
ocidental convencional. Outra impressão teríamos se ao invés do binóculo sobrevoassemos
a cidade de Ontário em um voô de helicóptero, ou ainda se cruzassemos a
fronteira para bater perna do lado de lá. Os pormenores e os detalhes mudariam amiúde
nossa impressão inicial e uma nova realidade se criaria. Essa realidade não é
estática e sim dinâmica, uma vez que, se por convite de uma empresa, viessemos
a morar em Ontário, a trabalho, outra impressão se criaria e assim por diante.
Estamos cercados de exemplos
desse tipo. É só pararmos pra pensar. Quantas teorias são desbancadas para dar
lugar a algo novo ou apenas uma interpretação mais acurada?
Tá e onde entra a literatura
nisso tudo? Nesse contexto, a literatura diverge da ciência em situações diametralmente
opostas. A literatura é ficção, invenção da cabeça de um ser, que pode ou não
conter fatos verdadeiros, impressões pessoais e afins, porém trata-se de um
texto que não necessita comprovação e mais, não remete a expressão individual
do autor. A ciência e as suas teorias são FATOS, fatos que passaram por experimentação
rigorosa feita por instrumentos e afins. A literatura não pode ser contestada,
a teoria sim. A literatura não possui compromisso com a verdade, a teoria sim.
A literatura não cumpre propósitos e não pretende deixar o mundo organizado, a
teoria em parte sim. A literatura não é porta voz de verdade ou de ideologias,
a teoria por vezes é.
Tendo dito isso, é importante
salientar que a teoria e a literatura tem em comum uma coisa: Saem da mente
humana e de suas interações com o ambiente, filtradas pelo intelecto. Ambas são
aproximações da realidade. É claro que os puristas de plantão vão querer minha
cabeça neste momento. Porém, entendo que os textos que publico neste blog são
uma aproximação da realidade em que eu vivo e absorvo de diversas formas, mas
que cada um faça sua própria interpretação. Que cada um os viva de forma
diferente e única. Pois assim como na ciência, não existe natureza última de um
texto, de uma prosa, de uma poesia. Há quem diga que a placa situada na frente
de todos os elevadores com os dizeres “Antes de entrar no elevador verifique se
o mesmo encontra-se parado no andar. Lei Nº 9.502, de 11 de Março de 1997” trata-se de literatura. Eu mesmo me indaguei “Por
lei, devo verificar que o elevador está no andar antes de entrar? Deus!! Quem
fiscalizaria tal absurdo”. Entretanto a lei versa sobre o fato de que todos os
prédios que possuem elevador DEVEM possuir tal placa afixada. Pois é, a minha
interpretação é a literatura. O que a placa quer dizer, é o fato.
Obrigado, caso alguém tenha lido até aqui. E de agora em
diante, espero que os interessados na teoria do flogístico se interessem um pouco
também por textos e outras leituras, sobre tudo um pouco.
José Carvalho, Bacharel em
química pela Universidade de São Paulo. Atualmente aluno de doutorado na
Universidade de São Paulo, pobre e falido, como todo pós-graduando.
"Os grandes artistas não são os copistas do mundo, são os seus rivais."
André Malraux
Essa roda viva gira dentro de mim e eu não posso pará-la, como você deseja, como gostaria.
Tirar-me de mim mais uma vez é necessário. E partir. Partir é vital. É visceral, é urgência e não superfície... ilusão.
Ilusão talvez todos sejamos e eu preciso sair dessa carne, essa carne não presta. Comunicador com o mundo exterior a fim de dissolver alguma angústia.
E que me difere de ti? O que nos difere?
Talvez nada além de um bater de um sino que ecôa em minha mente, nada além de alguns fios orgânicos presos em meus pulsos e calcanhares. Talvez nada, a não ser essa névoa roxa, brilhante e etérea, que exalo das minhas narinas quando respiro.
“Vai pra onde, vai com quem, volta a que horas?”
“Vou pra longe, vou com muitos, talvez não volte”
Na surdina da noite, o debilitante véu da moral apática se desfaz, eu gozo, no riso, eu choro... Talvez por você?
Os meus lábios coloridos eu vejo atráves de uma fina película metálica refletindo meu rosto. Está na hora.
Dois homens sentados, estão de chapéu, mais alguns ao fundo, bem vestidos. Poucas mulheres, conto três. A audiência é esparsa e vaga, composta em sua maioria de homens, alguns com semblante de agonia, ou ciúme. A textura dos tecidos das cortinas tocam meu rosto. É particular a sensação que causam. O cheiro é de piso de madeira e cigarros sem filtro. O silêncio é material. O silêncio então existe.
Não confundam meus amores e meus dias e meus sexos. Me batam na cara, me amem, me amarrem em uma corda e me lançem a dez metros de altura e eu voltarei. Voltarei para dormir em seus sonhos.
"Com o tempo não
vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns
dos outros."
Mario Quintana
“Vamos lá hoje?” Disse ela, baixinho, com uma ansiedade
muda.
“Ahn?” Disse ele, atordoado, olhando para tevê algo sem
importância em volume bem baixo. “Onde?”
“Você não lembra Arnaldo? Bom deixa pra lá...” Olha as
unhas. “Vai fazer o quê hoje?”
“Nada, trabalhar... O de sempre. Mais tarde vou ao banco” O
silêncio dura dez minutos.
“Amanhã minha mãe quer que a gente a leve naquele restaurante”
Diz ele dando um gole no café já frio.
“Que restaurante, Arnaldo?” A mulher replica sem olhar pro
marido.
“Odete, como que restaurante, aquele que a gente se
conheçeu... Fantasiando um segredo no
ponto onde quer chegar...” Cantarola ele, baixinho.
“Ai Arnaldo, aquela pocilga... Bah, vamos então. Mas eu vou
levar o meu próprio papel higiênico. Os de lá são tão finos que molham meus
dedos” Diz a mulher levemente contrariada.
“Tá bom.” Responde o homem fazendo cara que estava pensando
em algo diferente “Mas e aquele dia, fez um sol de matar, era um sábado... Né,
Odete?”
“Ahn?” Após a indagação dela, um novo silêncio, agora de
quinze minutos.
“Vai fritar bifes ou façamos o frango assado?”
“Não sei, tu que sabes.” Agora ela está olhando uma revista
velha, sentada a mesa. “Melhor algo rápido, mais tarde tenho uma reunião com o
João.”
“Bifes então.” Responde automaticamente
“Os seus pais continuam os mesmos, não é Arnaldo?” Diz ela em
tom de sarcasmo.
“Sei lá...” Responde, trocando de canal na tevê “Jogão de
bola, Palmeiras e Corinthians. Uma vez fomos em um jogo de futebol. Lembra
Odete? Você se divertiu horrores. E o Benedito foi junto com a gente. Lembra? ”
Diz sorrindo “Você estava toda vaporosa, causando a confusão entre os homens...
Ah, estava linda!”
“Benedito morreu, né?” Diz ela seca, sem pesar.
“Morreu, câncer” Responde o homem olhando para os botões do
controle remoto.
“Vou fritar os bifes, então” Diz a mulher levantanto-se
ligeiramente da cadeira.
Arnaldo se apruma no sofá e afofa uma almofada.
“Ei, Odete, já que estamos aqui sem fazer nada... quer
relembrar os velhos tempos do banco de trás do meu opala?” Diz Arnaldo gritando
para a mulher na cozinha.
“Ai velho, vai tomar banho. Piadinha agora não. Podia pegar
uma vassoura e varrer aquele quintal cheio de merda de cachorro.” Grita a
mulher de volta, batendo umas panelas.
“Há, Odete, você é mesmo um máximo. Não muda nunca.” Disse
engolindo seco alguma coisa que havia se formado em sua garganta.
Após alguns minutos de tevê quase muda a mulher chega de
volta a sala:
“Hoje eu chego tarde, viu?” Disse ela, sem dar importância.
“Eu também” Disse, também sem se importar muito. “Vou ao
clube, dominó das quartas-feiras”
“Ahn...” Arrumando o busto no vestido.
“A casa está muito vazia sem os meninos aqui” Diz ele “vamos
para um lugar menor?”
“O Albertinho vez em quando ta por aqui, precisamos desse
quarto extra” Diz a mulher ajeitando as sobrancelhas olhando em um espelhinho
que acabara de tirar da bolsa
“E quando começamos. Lembra? Eramos eu, você em apartamento
pequeno. Pintei a casa toda. Lixei os batentes. Enceramos os tacos com cera de
carnaúba e colacamos um antúrio na janela” Diz Arnaldo, passando a mão nos
cabelos e olhando em um ponto fixo que parecia estar no passado.
“É verdade” Diz a mulher estalando a boca após passar um
batom cor marrom “Estou bonita?”
“Claro” Diz Arnaldo.
“Que acha desse meu novo vestido?” Diz despretenciosa.
“É novo? Bonito” Indaga Arnaldo curioso. Na verdade estava
sendo educado.
“Os bifes estão na panela, estou de saída...” Diz pegando a
bolsa.
“Tá bom” Arnaldo responde quase ao mesmo tempo que Odete.
“Quando eu voltar eu como alguma coisa, se estiver com fome”
Diz a mulher.
“Sim” Automaticamente.
Odete beija Arnaldo na fronte.
“Tchau velho”
“Tchau, mulher” diz olhando novamente pra tevê. “Te amo”
murmura Arnaldo, bem baixo, depois de Odete já ter batido a porta forte.
Queria
estender-lhe a mão e afastar os fios de cabelo que lhes tocam a face, pô-los
por detrás de sua orelha para olhar em seus olhos negros, fundos, e entender o
que escondes por trás de tantas minúcias. De tantas mãos nervosas e trêmulas,
com unhas levemente roídas, fazendo dançar entre os dedos uma chave - seria de
sua casa? - queria entender o que se passa por detrás desse profundo rio plácido.
As suas águas tenho certeza que transbordam calmas para lhe refletir na face
essa mansidão de menina-mulher serena, mas por trás de suas nuanças esconderias
tu águas caudalosas e cálidas, turbulentas e de impetuosa paixão que te
fraquejariam as pernas e me trepidaria o juízo. E seu juízo, queria compreender
por trás dessa tua saia rodada de moça e me emaranhar nela como se me deitasse
no campo das flores da qual é composta, para sentir-lhe o cheiro e garantir que
minhas mãos entendam sua textura e a gravem em uma memória particular e
inacessível. Entenderia melhor seus mecanismos e seus meandros se te possuísse
de uma maneira maléfica, a fim de te fazer mal, todo mal que me causas, mas
extenuante mal, para que finalmente sua língua deslizando entre os dentes me
contasse uma verdade que já desconfiava? E sentiria seu hálito próximo ao meu a
me embriagar, em um lânguido pecado com gosto de sal e terra vermelha, e tuas
unhas em minhas costas, em meu corpo que almejara em teus mais limpos lençóis,
com tua boca mais vermelha a me beijar como se não houvesse amanhã, em tuas
pernas montadas como um lindo esquadro - será então que entenderia o que se passa
por trás desse espesso véu de secreta cumplicidade quando me olhas? Às suas
minúcias jaz, quase invisível, uma aura que a faz emitir calor, porém
imperceptível aos tolos.
"De homem a homem verdadeiro, o caminho passa pelo homem louco."
Michel Foucault
Uma aranha estaticamente parada em uma folha orvalhada esperava sua presa e a formiga apenas subia a caminho de sua morada. Um homem caminhava na rua em direção ao posto de gasolina, em busca de uma loja de conveniências, que lhe vendesse cigarros as 11:14 da noite, pois sofria de insônia, pensando no trabalho, no relatório, no artigo, na produtividade, na ulcera péptica. A formiga subia, a aranha esperava. O homem se embrenhou rapidamente por entre as ruas escuras, com os olhos arregalados, vigilante. A formiga mal sabia do enorme perigo que lhe esperava bem a frente: a aranha predadora quieta e impávida, calma e irresoluta que apenas aguardava. A formiga apenas fazia o que tinha que fazer. Roendo as unhas o homem apressou o passo, parecia estar sendo seguido, coçou a cabeça freneticamente até sentir um filete quente de sangue escorrer‑lhe pela nuca. Um cheiro de ferro entrou-lhe pelas narinas quando ele tentou retirar os restos de pele debaixo das unhas enegrecidas. A aranha estava perfeitamente estática e sabia que a formiga, guiando-se por rastros químicos passaria por ali, ou não, porém independente das reais razões que a levaram até ali isso não muda o rumo das coisas. Enquanto isso a formiga, o ser andante, que nunca levanta a cabeça e sempre anda em direção sabe-se lá para onde, carregando um fardo muitas vezes mais pesado que o seu próprio corpo, para um bem maior e coletivo - alimentar os seus – nada queria, nada ansiava, nada temia, apenas andava. Compulsivamente e ciclicamente o homem pensava “esse porra não chega!” e apressou o passo quando ouviu um ronco alto de um motor de moto aproximando nas suas costas, aparentemente em alta velocidade. Existem certos momentos na vida que a gente se depara com uma clareza tão absurda que é até bonito, e um homem em busca de cigarros às 11:14 está longe disso. A aranha nem faz idéia, mas a formiga esta cada vez mais perto e perto, subindo e perscrutando os sulcos da folha, gerando uma vibração quase imperceptível, porém estrondosa para o sentido aguçado do aracnídeo. A moto estrondosa passa escandalosamente pela rua e ensurdesse os sentidos do homem - o coração vai na garganta. Se ao menos tivesse um cigarro. O medo gelava sua espinha, esmagava a sua alma. O suor fazia a sua roupa grudar no corpo e exalar um cheiro azedo, de animal acuado. A formiga não tinha medo, como poderia, não era dotada de um lobo temporal altamente desenvolvido. Entrou na conveniência “me dá um cigarro”. “Qual?” “Qualquer um” “Marlboro, Derby...?” “Qualquer um, você é surda?”. Pegou o cigarro “ Fica com o troco”. Desesperadamente tentava abrir o maço de cigarros com a mão trêmula e molhada de suor utilizando-se de esforço sobre-humano para retirar aquele maldito plástico protetor superior. Meteu a mão nos bolsos. Sem fósforos. SEM FÓSFOROS! Entrou de novo na conveniência engolindo seco a vergonha em nome de uma tragada – vício, palavra crua. Saiu de cabeça baixa e passo apressado, riscando o fósforo que acabara de comprar. Ao olhar pra trás viu o frentista entrar na conveniência e cochichar com a atendente, deviam estar falando dele, só podiam estar falando dele. Será que o frentista viria tirar satisfação? Pensou em uma resposta rápida, depois pensou na rota de fuga mais próxima, quando menos percebeu sua mão já estava pronta para um soco, se solicitada, dentro de seu bolso. Enquanto isso, a aranha estimulava suas glândulas e sistemas e afins. O homem continuou andando, suando frio. A formiga andando, andando, andando, andando. Este é o passo limítrofe que divide as situações reversíveis das coisas que não podemos mais reverter. A aranha sentiu a formiga com suas patas agarrou-a e rapidamente envolveu-a com sua teia. A formiga tentou lutar mas foi como deveria ser. A formiga foi devorada e digerida lentamente pela aranha que satisfez sua necessidade basal de sobrevivência. O homem voltou pra casa e fumou o seu cigarro. Tudo estava em equilíbrio, novamente.
Non, Je Ne Regrette Rien by Edith Piaf on Grooveshark
“Há um tempo em que é
preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e
esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo
da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem
de nós mesmos.”
- Fernando Pessoa
Naquele dia escuro de quinta-feira tudo parecia diferente, mas na verdade as coisas eram iguais. As coisas eram iguais, vejam bem, as coisas. Por que por num instante as coisas podem ser iguais, o computador batendo as teclas e fazendo o som moroso, as pessoas indo e vindo, o farfalhar do lápis no papel, o som do ar condicionado, e lá fora o som do ensurdecedor do silêncio batendo na folhagem, que balaçava novamente, em paz. Tudo igual. Mas por dentro, processos interiores não são lineares, não seguiam regras fixas e não o obedeciam naquele dia. A perseguição por algo que ele nem sabia o que era, atropelou na estrada e deixou desfigurado no chão, seguindo sem rumo achando que iria escapar impune, havia chegado ao fim. E quando olhou para trás viu rostos muito estranhamente familiares, como num filme antigo, em preto e branco, muitas vezes mudo. Ele não conseguia tocar, apenas ver. Estava distante e sabia que era o momento da travessia. Entretanto, tinha em mente ainda tantas coisas vivas e fervilhantes que pareciam ter acordado agora. E ainda sim podia saber que a vida, sabe-se lá por que, tem rumos esguios. As deliciosas lembranças que teve durante toda manhã ele saboreou feito criança, comendo fruta no pé. Rindo só. Mas foi só, por que os processo internos são internos, e assim foi. “Me de mão e podemos ir para lua” ele queria dizer - utopia. O porto de Palos era logo ali, e estava com o pé no seu próprio convés, virando a popa para onde sentia mais medo naquele momento. A vontade de dizer palavras que soassem como fortes abraços naquele momento era grande, mas naquele momento talvez falar não fosse mais necessário, e nem mais Demócrito, nem Leucípo, nem mais merda nenhuma. De repente, um sorriso valsou ar no fim da noite e ele foi feliz ali.
Dormiu. Sonhou com coisas idílicas, lindas e leves. Conversas num pé de morro verde. Com casinhas de interior. Com mãos dadas e olhares cúmplices.
Acordou. O inferno era lá. Descontentou-se com meras bobagens. Distraiu-se do ponto de foco. Brigou e amargurou.
Dormiu. Sonhou que estava lá, ao seu lado. Na beira de uma piscina. Tomando um sorvete que tinha um gosto estranho. Os sorrisos pairavam no ar. Correram para o infinito.
Acordou. Sentiu-se sujo, usado, descartado. Vil, malvado. Machucado. Angustiou uma volta de que, inconscientemente, sabia de cor-e-salteado o desfecho. Esperou em Deus, em Alá... em qualquer coisa que lhe trouxesse paz.
Dormiu. Novamente estava lá. E nada do seu dia fazia mais sentido. Só estar ali significava. Dessa vez o cenário – que de fato era o que menos importava – era uma estrada com marquise que ele bem conhecia. As mãos estavam dadas ainda. E mais risos. E um breve “te amo” entre os lábios.
Acordou. E tudo continuava a ser como antes. O fingimento veio a tona. Sorriu de canto de boca. Chorou.
Dormiu de novo. E dessa vez estava sentado numa nuvem. Grande e fofa. “O que passa na sua cabeça quando escreve, se eu soubesse te entenderia melhor”.
“Eu não sei, meu bem, eu não sei”
Foi acordado pelo despertador alvoroçado. Desligou-o. A saudade o fazia suar frio. E aquele sentimento de culpa, culpado, c-u-l-p-a-d-o. Que sentimento infeliz de querer voltar a dormir a qualquer custo e retomar do ponto onde estava. Exatamente do ponto em que se perderam.
Dormiu novamente. E dessa vez procurou-a em todos os recônditos de sua mente, que era toda coração agora. Ouviu-lhe só a voz dizendo coisas que não formavam sentido, mas era doce e bela. Procurou mais um pouco. Sentou. Chorou e percebeu que o choro sonhado dói mais que o consciente, por que a lágrima não arrefece, tampouco acalanta a dor. É só o nó na garganta e desespero. Quis acordar mais que tudo na vida. Ainda permaneceu sonhando e viu um vulto vagando levemente com uma saia rodada e cabelos ao vento.
Acordou. Recebeu conselhos. Uns frios, outros duros, outros menos duros e otimistas. Mas nada fazia sentido. Não queria ser aquele tipo de homem. Queria querê-la, pois mesmo que o matasse, o vivia. Dava-lhe vida.
Dormiu. E compôs num misto de sentimentos outra realidade. Onde ele não espera que as portas abram ela entre, que um carro pare em frente à sua casa. Que seja surpreendido num domingo de manhã. Nem numa sexta-feira à noite. Onde os telefones realmente não tocam, nem ninguém se faz presente, só passado. Alto lá: estava dormindo ou estava acordado. Nem sabia mais. Que desatino.
E na sua alma esperava apenas ouvir algo que não era vaidade, nem ego. Só a pureza de um enleio, que dura um átimo de tempo infinito e ninguém conhece sua natureza, ninguém a prende, nem a armazena. A pureza de um som que vem de dentro e reverbera na face. A pureza de um olhar que nada teme, e que despreza o mal. A pureza que poucas vezes percebemos ou nos damos conta. Por vezes até a descartamos, julgando-a infanti ou impúbere. Essa pureza imaterial que alguns tolos, apesar de desconhecer todos os mistérios, ousaram chamar de amor.
A caixa vermelho carmim, com detalhes dourados
O homem andando sempre, pra não se sabe onde
Mas sempre andando
Destilada, misturada léxica e morfologicamente
E engarrafada na escócia
Onde homens de barba vermelha tocam
um instrumento monotônico e usam saias
Letras em alto relevo e minha face no chão molhado
Arenoso, da calçada.
Um brasão da dinastia, com cavalo e leão,
que aludem a um reino forte. Um homem fraco
No chão. Pensando. A garrafa seca.
Ódio e impunidade, impotência.
Falta completa de significado. Desconexão.
Desconjuro pé de pato mangalô três vezes.
Durmo. Sonho em andar, mais uma vez.
O ar gelado da madrugada tocava seu rosto, acariciando-o com seus dedos frios. O cheiro de natureza estava por ali, em algum lugar – Talvez apenas em sua mente. Um trago, um pensamento. Entre tantos caiu um que gritava, chorava, pedia. Pegou-o, esbofeteou-lhe e enfiou dentro de uma caixa escura. Um alegre girando estava de saia rodada colorida, e um laço de fita. Outro velho e acabado estava dizendo nostalgias, impropérios, e reclamando. Todos pareciam fazer parte de um todo desconexo. Um branco, voando, livre. Um azul, perdido. Um vermelho, mordendo os lábios de angústia, de luxúria.
Fazendo nada jus a uma noite vazia sua mente estava cheia, povoada. Um deles pulou e estrangulou-o, com força. Um carro passou e buzinou. Sua cara de espanto na sacada de seu apartamento era como uma profecia de culpa. E depois vieram dois mais, negros, lindos, como corvos. Que balançavam em um balanço sorrindo vaziamente. Um caiu e o outro voou numa brisa leve. O pandemônio continuou sobre chuva de sal, chuva de lágrimas, e impressionado ficou quando percebeu que seus sentimentos podiam interferir nessa reunião – feita com intuito de promover a desordem – e posteriormente, percebeu que seus sentimentos também eram pensamentos e ocupavam sua mente para dar-lhe o troco. Tomar controle. O seu desejo de identificação com a unidade, e com a criação, já era nulo. Apenas se entregou ao inevitável.
Em frente a sua casa brilhava uma flor em neon. Vermelha pulsante. Um letreiro de estrondosa beleza urbana. Apenas adormeceu com os murmúrios de seus demônios interior, desejando apenas não sentir-se despedaçado, rachado, amanhã.