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segunda-feira, maio 20, 2013

Saudade



Se saudade tivesse nome ela se chamaria você.
Pois você sabe o motivo.
Você sabe que sim, que te sinto.
Você está presente em mim, em todos os milisegundos fragmentados da minha vida.
E andar seria fácil, por você,
Ainda que difícil.
Você está sempre perto e insistentemente.

Você,
Afago ceifado
E suspiro-dos-jardins ao vento.
Você,
Amores malogrados na retina do tempo.

quarta-feira, maio 08, 2013

Fugir é instinto, fingir é humano

“O que você disser, não diga duas vezes.
Encontrando o seu pensamento em outra pessoa: negue-o.
[...] Apague as pegadas”.


Bertold Brecht



Não há ninguém aqui, meu bem, minha querida, fujamos. Sei, claro que sei que não podes. O quê? Quem vem lá? Quem vem lá? Fique tranquila. Estamos bem, só tomando um drinque, estamos cercados de pessoas. É perigoso aqui, eu sei que é. Me dê sua mão. É claro, claro que sei que é inadequado, mas podemos apenas disfarçar? Eles estão vindo aí, é melhor nos separarmos para o bem, veja, cuidado. Me encontre no chafariz, ali à frente. O quê? Vais demorar? Olhe, cuidado com quem falas, e o que falas, se lhe pegam pode ser tarde demais. Disse alguém que estaríamos aqui? É claro que eu não disse a ninguém! Ou tu achas que não mensuro consequências. O amanhã tardará a chegar, precisamos de precaução, precaução e estratégia. Veja, estou indo, não é mais seguro. Vês aquele homem atravessando a rua? cabelo baixo, meio louro, cara de polaco, se chegando... Vá, vá de uma vez. Estou indo-me também.
Embora saiba que ela não vá falar com ele, eu aposto, tão certo como estou dando passos agora que... Ah! bobagens, ande homem, ande. Ninguém pode vê-lo, ninguém. E se acaso encontrar outros e outras no caminho? Apresse-se, vamos. Um pé depois do outro, um pé depois do outro. Olhando pra baixo, olhe pra baixo. Será que é vergonhoso? Será? O que pensas? O que mereço? E tu, como vieste parar aqui? Chafariz, chafariz, chafariz... Mas que merda, tinha que dar essa chuva. Ela não está aqui ainda. Medo mortal que me assombra. Nos assombra. Acho que na verdade lhe assombra mais, não é, não é? Diga-lá, diga por Deus, pelo Diabo!


Onde estavas, ninguém a seguiu? Tens certeza? É, de fato, concordo contigo. É bom e prudente andarmos, andemos. O quê? Quem lhe perguntou isso? Não, claro que não os contei sobre isso. Ainda louco não estou. Mas é melhor mesmo, nem um pio. Boca de siri. Estás ofegante, que sentes?, dor no peito, estás cansada? Eu também, ofego, busco folêgo e a respiração vai rápida, vai sôfrega. Toma, pega um cigarro, deves estar aos nervos. Dobra aqui, nesse beco, dobra aqui, é melhor. Não, é claro que nada vai dar errado. Pula essas poças d’água e não se preocupe com os mendigos, são inofensivos, venha, venha rápido. Oh, meu Deus, caíste! Que acontece? Machucaste o joelho? Estás bem? Já estamos chegando, calma lá. Eu sei que estás cansada, eu também, mas o que podemos fazer, além de fugir, fugir e fugir. O quê? Você está pensando em... Não, é claro que não está pensando nisso. Eles entenderiam? Não sei. E você pode se machucar feio com isso. Eu seguraria na sua mão, como sempre, como sempre. Mas é o que queres? Não... Bom, desconfiava a princípio. Então continuemos, embrenhe aqui nessa escuridão. Tenha coragem, é o único jeito. Pulemos essa grade, pulemos. Ali está um cobertinho, ninguém irá nos ver. O quê? A lâmpada? Me alcançe aquele pedaço de pau. Pronto, resolvido. Não havia outro jeito, tive que estilhaçá-la, é por nosso bem. Venha, chegue mais perto, está chovendo. Tome, vista minha blusa, irá lhe proteger do vento. Não, eu não penso como você, acho que poderíamos sim, sim poderíamos. Mas isso não importa agora. Venha cá, pois preciso tanto de ti. Não há ninguém aqui, estamos seguros, me beija, me beija agora.




sábado, março 30, 2013

Quarta parada.


Começa breve, vem curto e para calmo.
Começa lânguido, começa assim, não para nunca a aflição e a angustia.
Começa rápido, começa turvo, começa lento, sem espaços pra desgostos,
Só saudade.

Envereda por mim, por ti, costurando.
Envereda como uma mão aberta passando em água de rio corrente.
Envereda em tudo que é nosso, e não mais seu e meu, sem motivos de renuncia,
Só cumplicidade.

Continua assim, leve e fraco.
Continua por que sim, continua por querer um abraço de vez-em-quandinho.
Continua com sorvete de amora, com doce e azedume temperando aquele dia que nada expõe,
Só caridade.

E termina carmim, murcho e seco.
Termina romance, termina drama, termina furacão.
Termina como você quiser, terminais conexos, com leveza áspera, navegando nas almas incautas que nada possuem,
Só tempestade.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Atricidade

"Os grandes artistas não são os copistas do mundo, são os seus rivais." 
André Malraux 


Essa roda viva gira dentro de mim e eu não posso pará-la, como você deseja, como gostaria.
Tirar-me de mim mais uma vez é necessário. E partir. Partir é vital. É visceral, é urgência e não superfície... ilusão.
 Ilusão talvez todos sejamos e eu preciso sair dessa carne, essa carne não presta. Comunicador com o mundo exterior a fim de dissolver alguma angústia.
E que me difere de ti? O que nos difere? Talvez nada além de um bater de um sino que ecôa em minha mente, nada além de alguns fios orgânicos presos em meus pulsos e calcanhares. Talvez nada, a não ser essa névoa roxa, brilhante e etérea, que exalo das minhas narinas quando respiro.
 “Vai pra onde, vai com quem, volta a que horas?”
 “Vou pra longe, vou com muitos, talvez não volte”
Na surdina da noite, o debilitante véu da moral apática se desfaz, eu gozo, no riso, eu choro... Talvez por você?
Os meus lábios coloridos eu vejo atráves de uma fina película metálica refletindo meu rosto. Está na hora. Dois homens sentados, estão de chapéu, mais alguns ao fundo, bem vestidos. Poucas mulheres, conto três. A audiência é esparsa e vaga, composta em sua maioria de homens, alguns com semblante de agonia, ou ciúme. A textura dos tecidos das cortinas tocam meu rosto. É particular a sensação que causam. O cheiro é de piso de madeira e cigarros sem filtro. O silêncio é material. O silêncio então existe.
Não confundam meus amores e meus dias e meus sexos. Me batam na cara, me amem, me amarrem em uma corda e me lançem a dez metros de altura e eu voltarei. Voltarei para dormir em seus sonhos.


Changes by Seu Jorge on Grooveshark

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Por trás de seus detalhes.


Queria estender-lhe a mão e afastar os fios de cabelo que lhes tocam a face, pô-los por detrás de sua orelha para olhar em seus olhos negros, fundos, e entender o que escondes por trás de tantas minúcias. De tantas mãos nervosas e trêmulas, com unhas levemente roídas, fazendo dançar entre os dedos uma chave - seria de sua casa? - queria entender o que se passa por detrás desse profundo rio plácido. As suas águas tenho certeza que transbordam calmas para lhe refletir na face essa mansidão de menina-mulher serena, mas por trás de suas nuanças esconderias tu águas caudalosas e cálidas, turbulentas e de impetuosa paixão que te fraquejariam as pernas e me trepidaria o juízo. E seu juízo, queria compreender por trás dessa tua saia rodada de moça e me emaranhar nela como se me deitasse no campo das flores da qual é composta, para sentir-lhe o cheiro e garantir que minhas mãos entendam sua textura e a gravem em uma memória particular e inacessível. Entenderia melhor seus mecanismos e seus meandros se te possuísse de uma maneira maléfica, a fim de te fazer mal, todo mal que me causas, mas extenuante mal, para que finalmente sua língua deslizando entre os dentes me contasse uma verdade que já desconfiava? E sentiria seu hálito próximo ao meu a me embriagar, em um lânguido pecado com gosto de sal e terra vermelha, e tuas unhas em minhas costas, em meu corpo que almejara em teus mais limpos lençóis, com tua boca mais vermelha a me beijar como se não houvesse amanhã, em tuas pernas montadas como um lindo esquadro - será então que entenderia o que se passa por trás desse espesso véu de secreta cumplicidade quando me olhas? Às suas minúcias jaz, quase invisível, uma aura que a faz emitir calor, porém imperceptível aos tolos.

sexta-feira, março 23, 2012

Me de a mão e podemos ir para lua


“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

- Fernando Pessoa

Naquele dia escuro de quinta-feira tudo parecia diferente, mas na verdade as coisas eram iguais. As coisas eram iguais, vejam bem, as coisas. Por que por num instante as coisas podem ser iguais, o computador batendo as teclas e fazendo o som moroso, as pessoas indo e vindo, o farfalhar do lápis no papel, o som do ar condicionado, e lá fora o som do ensurdecedor do silêncio batendo na folhagem, que balaçava novamente, em paz. Tudo igual. Mas por dentro, processos interiores não são lineares, não seguiam regras fixas e não o obedeciam naquele dia. A perseguição por algo que ele nem sabia o que era, atropelou na estrada e deixou desfigurado no chão, seguindo sem rumo achando que iria escapar impune, havia chegado ao fim. E quando olhou para trás viu rostos muito estranhamente familiares, como num filme antigo, em preto e branco, muitas vezes mudo. Ele não conseguia tocar, apenas ver. Estava distante e sabia que era o momento da travessia. Entretanto, tinha em mente ainda tantas coisas vivas e fervilhantes que pareciam ter acordado agora. E ainda sim podia saber que a vida, sabe-se lá por que, tem rumos esguios. As deliciosas lembranças que teve durante toda manhã ele saboreou feito criança, comendo fruta no pé. Rindo só. Mas foi só, por que os processo internos são internos, e assim foi. “Me de mão e podemos ir para lua” ele queria dizer - utopia. O porto de Palos era logo ali, e estava com o pé no seu próprio convés, virando a popa para onde sentia mais medo naquele momento. A vontade de dizer palavras que soassem como fortes abraços naquele momento era grande, mas naquele momento talvez falar não fosse mais necessário, e nem mais Demócrito, nem Leucípo, nem mais merda nenhuma. De repente, um sorriso valsou ar no fim da noite e ele foi feliz ali.
“Boa sorte amigos, apenas começamos”

  Kings Of Leon by Sex On Fire on Grooveshark

quarta-feira, setembro 30, 2009

Selo Vermelho

A caixa vermelho carmim, com detalhes dourados
O homem andando sempre, pra não se sabe onde
Mas sempre andando
Destilada, misturada léxica e morfologicamente
E engarrafada na escócia
Onde homens de barba vermelha tocam
um instrumento monotônico e usam saias
Letras em alto relevo e minha face no chão molhado
Arenoso, da calçada.
Um brasão da dinastia, com cavalo e leão,
que aludem a um reino forte. Um homem fraco
No chão. Pensando. A garrafa seca.
Ódio e impunidade, impotência.
Falta completa de significado. Desconexão.
Desconjuro pé de pato mangalô três vezes.
Durmo. Sonho em andar, mais uma vez.

domingo, maio 10, 2009

Flores Neon

Para Laís.


O ar gelado da madrugada tocava seu rosto, acariciando-o com seus dedos frios. O cheiro de natureza estava por ali, em algum lugar – Talvez apenas em sua mente. Um trago, um pensamento. Entre tantos caiu um que gritava, chorava, pedia. Pegou-o, esbofeteou-lhe e enfiou dentro de uma caixa escura. Um alegre girando estava de saia rodada colorida, e um laço de fita. Outro velho e acabado estava dizendo nostalgias, impropérios, e reclamando. Todos pareciam fazer parte de um todo desconexo. Um branco, voando, livre. Um azul, perdido. Um vermelho, mordendo os lábios de angústia, de luxúria.
Fazendo nada jus a uma noite vazia sua mente estava cheia, povoada. Um deles pulou e estrangulou-o, com força. Um carro passou e buzinou. Sua cara de espanto na sacada de seu apartamento era como uma profecia de culpa. E depois vieram dois mais, negros, lindos, como corvos. Que balançavam em um balanço sorrindo vaziamente. Um caiu e o outro voou numa brisa leve. O pandemônio continuou sobre chuva de sal, chuva de lágrimas, e impressionado ficou quando percebeu que seus sentimentos podiam interferir nessa reunião – feita com intuito de promover a desordem – e posteriormente, percebeu que seus sentimentos também eram pensamentos e ocupavam sua mente para dar-lhe o troco. Tomar controle. O seu desejo de identificação com a unidade, e com a criação, já era nulo. Apenas se entregou ao inevitável.
Em frente a sua casa brilhava uma flor em neon. Vermelha pulsante. Um letreiro de estrondosa beleza urbana. Apenas adormeceu com os murmúrios de seus demônios interior, desejando apenas não sentir-se despedaçado, rachado, amanhã.
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