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domingo, maio 26, 2013

Já na ida, e na volta.



“Não faça da nossa estória uma ex-tória”


De nascença sou paulista. Paulistano, termo preciso. Minha mãe também, nascida por aqui em algum lugar da zona norte. Ela me contava que quando criança lavava roupa no rio e eu fico hoje me perguntando que tal rio seria esse com água limpa, pra se lavar roupas. A cidade de São Paulo seria incrível se nossos rios fossem limpos, como Paris, como as vias européias em geral. Adotamos normalmente, dos europeus, só o que não nos vale. Minha mãe dizia também que quando moça, seu passatempo com as irmãs, era ir ao circo, e contando-me essas histórias ela fazia uma pintura na descrição, embaraçando as cores vermelhas e amarelas das tendas, com o cheiro dos animais e as apresentações dos Demônios da Garoa. E eu fiquei pensando um pouco, tecendo na minha imaginação, um cenário louco e bucólico, de trás pra frente, onde um palhaço, dando os braços para o ar e sorrindo maniacamente, cantava trem das onze e corria em direção ao público, onde uns riam e outros choravam, de espanto. Ela contava que naquela época era muito comum fazer festa junina nas ruas e ela passava bom tempo com as irmãs recortando bandeirinhas, que seriam presas a barbantes, e por fim enfeitariam os arcos de bambú que passavam de um lado a outro na rua. Fogueira grande e quentão, frio de época. Vez em quando, por aquele tempo, aparecia o tio dela e estacionava o caminhão de carga, sujo de barro do Brasil, e ficava um dia ou dois. Esse homem era tido como um dos mais brutos de toda região e fazia fama com sua crueldade e vilania. Lembrava minha mãe que um dia ele arrancara a orelha de um homem com um único soco, e eu dizia que aquilo era impossível, mas ela replicava, dissertando que seu punho tinha a força de um coice de burro chucro. Que imagem terrível e de triste solidão que fiz de meu tio-avô, temperada com dias de violência e aventura, nas estradas a fora ouvindo uma radiola velha e fumando cigarro sem filtro. E não me lembro ao certo, mas esse meu tio-avô, segundo minha mãe, tinha corpo fechado. Desses tipos que nenhum sincretismo atinge, ilê, ilê camará, nem despacho nem raiz de maniçoba, nada derruba tal cristão com suas rezas e seus guias. Não cheguei a conhecê-lo, nem a seu pai, meu bisavô, que era homem sovina e misantropo. As vezes fico imaginando que vingamos pelo tempo, ao sabor da sorte e do vento. O cenário todo posto em perspectiva de lavadeiras e donas de casa de visão débil pela neblina das cinco da manhã e pela ignorância do androcentrismo natural da década de cinquenta me traz qualquer coisa de familiar ainda. Ela diz sempre, baixinho e com carinho, que o que ela viveu de ruim não quis passar pros filhos, e sem saber me inclui gentilmente no abraço de sua sabedoria. A todos nós, em fato. 



Meu pai vem de cima, como dizem, Pernambuco. Estado lindo, de Recife à Olinda, belezas e cultura, antigo e novo, cores dos carnavais e dos bonecos de gigantes de braços frouxos a pairar na multidão. Porém meu pai vem de região afastada no estado, alguma coisa perto da Bahia, onde antigamente era uma passagem dos missionários que pregavam para população ribeirinha. Uma semelhança com as histórias de minha mãe é o tal do rio, que meu pai me dizia ir pescar quando criança, de manhãzinha, quando o ar ainda não estava quente. Ele contava bem devagar das suas molecagens dos tempos idos, em que pegar goiaba do lado de lá da cerca era sentimento de liberdade, e que juntar três ou quatro amigos para passar a perna e derrubar a professora era motivo de riso solto, e valia a pena o castigo. Meu pai é de dia de São José e tem santo forte. Veio ao mundo numa casa de taipa na beira do rio, como o caboclo das matas, e criou uma fita ligando sua origem até São Paulo, fita acetinada escrita Nosso Senhor do Bonfim. Criou cinco filhos e trabalhou por sete homens, amou por vinte e cinco. A mãe dele disse que nenhum cobertor é curto para os nossos corações quentes. É um algo de dar, dar muito, as vezes até sem sinceridade. A mãe dele dizia que ele nasceu tão rápido que ninguém percebeu. Ela estava sozinha na casa, o marido na lida, e pediu pro meu pai buscar um pouco de água de rio e quando ele voltou já tinha nascido. É confuso, mas é estória. Minha vó tem as mais insólitas, inspiradas talvez em algum escritor de cordel que se perdeu nas tramas do tempo. Certa feita, contava ela, na beira do rio ela viu uma dança de peixes pratedos que voavam por cima das águas, rente a superfície, e eram brilhantes à luz da lua. Na escuridão da noite era possível ver a silhueta de um homem, na margem oposta, tocando uma música de feitiço no acordeão. No dia seguinte encontraram milhares de peixes à margem do velho chico, que foram coletados com a alegria esperançosa do milagre. E eu fico pensando que minha vó é qualquer coisa como de outro mundo, mistura de coisas, pimenta dedo-de-moça vermelha e graúda sobre tábua de madeira rústica. É doce, severa e diligente. Diligência que meu pai herdou. Acho que talvez eu tenha falhado nesse ponto, mas sem querer meu pai ensinou-me a maior lição, sobre a segurança de nossos atos pensando no futuro. E me envolve com sua matuta solidez.


Pensando não tão longe, eu me via correndo descalço nos quintais de cimento queimado. Tínhamos uma árvore de tronco apodrecido, que durante a primavera despencava de coquinhos amarelos, bem redondinhos, minha mãe dizia pra gente que eram venenosos. Claro que um dia eu comi um, só pra verificar a veracidade do dito. Tínhamos um cão. Tínhamos um tanque de pedra. Tínhamos aranhas, muitas aranhas. Tínhamos uns aos outros. Tínhamos uma serra de fita que meu pai usava para fazer espadas e carrinhos para nós, nas horas vagas, usando sobras de chapas de compensado. É simples, é muito simples. Fico pensando nas análises combinatórias que faço mentalmente sobre quantas pessoas são parecidas comigo, conosco, e as combinações são tantas e infinitas, mas ainda assim únicas. 

O dia de hoje foi curioso, eu levantei e me banhei, tomei duas xícaras de café preto, o que talvez explique o bater dos meus dentes. Abri todas as janelas, buscando o ar da primavera e nele encontrar, por sorte, alguma identidade com algo que não mais possuo. Após alguns breves minutos sentindo o vento lambendo-me as faces eu pensei ter adormecido de novo. Foram três batidas suaves na porta que num primeiro momento me fizeram dúvidar da minha audição. Quem haveria de ser? Abri. Pedi que entrassem. Meus fantasmas do passado vieram me visitar hoje, bem cedo, mas aos poucos vão se desvanecendo, com suas cores pálidas, roxas e verdes. Mas eu insisto, na minha solidão rasgada, para que fiquem, pois estou preparando um chá.

Foto: José Carvalho

O Velho Francisco by Chico Buarque on Grooveshark

quarta-feira, maio 08, 2013

Fugir é instinto, fingir é humano

“O que você disser, não diga duas vezes.
Encontrando o seu pensamento em outra pessoa: negue-o.
[...] Apague as pegadas”.


Bertold Brecht



Não há ninguém aqui, meu bem, minha querida, fujamos. Sei, claro que sei que não podes. O quê? Quem vem lá? Quem vem lá? Fique tranquila. Estamos bem, só tomando um drinque, estamos cercados de pessoas. É perigoso aqui, eu sei que é. Me dê sua mão. É claro, claro que sei que é inadequado, mas podemos apenas disfarçar? Eles estão vindo aí, é melhor nos separarmos para o bem, veja, cuidado. Me encontre no chafariz, ali à frente. O quê? Vais demorar? Olhe, cuidado com quem falas, e o que falas, se lhe pegam pode ser tarde demais. Disse alguém que estaríamos aqui? É claro que eu não disse a ninguém! Ou tu achas que não mensuro consequências. O amanhã tardará a chegar, precisamos de precaução, precaução e estratégia. Veja, estou indo, não é mais seguro. Vês aquele homem atravessando a rua? cabelo baixo, meio louro, cara de polaco, se chegando... Vá, vá de uma vez. Estou indo-me também.
Embora saiba que ela não vá falar com ele, eu aposto, tão certo como estou dando passos agora que... Ah! bobagens, ande homem, ande. Ninguém pode vê-lo, ninguém. E se acaso encontrar outros e outras no caminho? Apresse-se, vamos. Um pé depois do outro, um pé depois do outro. Olhando pra baixo, olhe pra baixo. Será que é vergonhoso? Será? O que pensas? O que mereço? E tu, como vieste parar aqui? Chafariz, chafariz, chafariz... Mas que merda, tinha que dar essa chuva. Ela não está aqui ainda. Medo mortal que me assombra. Nos assombra. Acho que na verdade lhe assombra mais, não é, não é? Diga-lá, diga por Deus, pelo Diabo!


Onde estavas, ninguém a seguiu? Tens certeza? É, de fato, concordo contigo. É bom e prudente andarmos, andemos. O quê? Quem lhe perguntou isso? Não, claro que não os contei sobre isso. Ainda louco não estou. Mas é melhor mesmo, nem um pio. Boca de siri. Estás ofegante, que sentes?, dor no peito, estás cansada? Eu também, ofego, busco folêgo e a respiração vai rápida, vai sôfrega. Toma, pega um cigarro, deves estar aos nervos. Dobra aqui, nesse beco, dobra aqui, é melhor. Não, é claro que nada vai dar errado. Pula essas poças d’água e não se preocupe com os mendigos, são inofensivos, venha, venha rápido. Oh, meu Deus, caíste! Que acontece? Machucaste o joelho? Estás bem? Já estamos chegando, calma lá. Eu sei que estás cansada, eu também, mas o que podemos fazer, além de fugir, fugir e fugir. O quê? Você está pensando em... Não, é claro que não está pensando nisso. Eles entenderiam? Não sei. E você pode se machucar feio com isso. Eu seguraria na sua mão, como sempre, como sempre. Mas é o que queres? Não... Bom, desconfiava a princípio. Então continuemos, embrenhe aqui nessa escuridão. Tenha coragem, é o único jeito. Pulemos essa grade, pulemos. Ali está um cobertinho, ninguém irá nos ver. O quê? A lâmpada? Me alcançe aquele pedaço de pau. Pronto, resolvido. Não havia outro jeito, tive que estilhaçá-la, é por nosso bem. Venha, chegue mais perto, está chovendo. Tome, vista minha blusa, irá lhe proteger do vento. Não, eu não penso como você, acho que poderíamos sim, sim poderíamos. Mas isso não importa agora. Venha cá, pois preciso tanto de ti. Não há ninguém aqui, estamos seguros, me beija, me beija agora.




quinta-feira, abril 04, 2013

Interação humana digitalizada.

Estava sentado em frente a seu computador ouvindo música, com fones de ouvido a prova de som, sentado na sua cadeira de escritório, aquelas com rodinhas e estofado azul. Pela janela via alguns jovens fumando maconha nos bancos da praça. Entendia que aquele ato era quase como que uma aventura pros maconheiros, viajar sem ser pego pela polícia. Estava conectado pela vigésima hora consecutiva no seu perfil de rede social. Social? Vá entender. Encarava aquela atividade como algo normal, como que estar conectado com os seus “amigos” o tempo todo. Certa feita encontrou um amigo na rua, com o qual falava muito pela internet, e a única coisa que disseram foi “Ah, eu vi que você curtiu a foto que eu postei...” “Aham, foda!”. O silêncio brutal tomou conta após isso. A vasta rede de pessoas com as quais estava conectado mal encontrava no seu dia a dia. Perder o contato virtual era difícil. O contato virtual era algo como que encaixotar pessoas que um dia foram importantes, que fizeram-no rir, que abraçara... mas não é assim a vida? Desejou certa feita que fosse possível apertar um dos botões a fim de materializar determinada pessoa de sua rede social, em vão sabia que estava desejando utopias. Tal qual quando, cansado de esperar digitou em um buscador na internet “Onde ela está?”. Buscou também “o que ela está pensando?”. Os milhões de resultados nada correspodiam a sua realidade, porém existia algo doce dentro dele que dizia que em breve tal recurso estaria disponível. “O que passa na mente dela?” BAM, em 0.07 segundos, milhões de resultados, pesquisados diretamente no alvo desejado, extraídos da mente do objeto de seu desejo. Surgiriam páginas e páginas com o conteúdo do tipo “Preciso levar o cachorro na rua” ou “Que tédio, queria que alguém me ligasse” ou ainda “Estou com medo do que irá acontecer, afinal”. Sim, sem sombra de dúvidas existirá um dia que essas tais ferramentas estarão disponíveis. E aí nada mais o impedirá de ser feliz, pois terá acesso irrestrito a todos os segredos mundanos e do interior mais íntimo da alma humana. Terá ainda acesso a informações do tipo “devo eu levar tal situação adiante?”. O mundo virtual terá todas as respostas aos mistérios bobos e frívolos da humanidade e de seus intelectos limitados. Uma vez que tenha olhado uma foto compartilhada na sua página, os comentários mentais feitos acerca da mesma serão instantaneamente registrados e publicados. Tal fato causará um alvoroço e por fim quedará a hipocresia. Falar-se-á de tudo e de todos exatamente o que se pensa, através da manifestação de seus mais sinceros pensamentos. E talvez a mentira acabará, findando o gracejo, o flerte, a amortização, a empatia, sobrando o torpor. Uma máquina esganiçada começará a berrar quando quiserem apagar os registros de seu perfil, pois a coletânea de tais dados possibilitará traçar o seu perfil psicológico auxiliando melhor a venda de produtos direcionados aos seus individuais alvos. E sem perceber entraremos como loucos dentro dos carros a procurar um recanto, isolados do mundo, onde só o eu, o computador e as linhas tênues e invisíveis que nos conectam serão importantes. E o toque, e o velho, e o cheiro, e a camaradagem, e a mentira velada, e a flor sépia do amor, e as tórridas paixões, e os burburinhos quando uma mulher passa, e a fina elegância de um violão tocando Tom, e os livros impressos, e a morte, e os bebês e as crianças, e a sua compania, e o teatro da traição, serão coisas do passado. Enquanto o mundo gira num furacão rumo ao esquecimento.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Estado Bruto de Solidão


"Com o tempo não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros."
Mario Quintana



“Vamos lá hoje?” Disse ela, baixinho, com uma ansiedade muda.
“Ahn?” Disse ele, atordoado, olhando para tevê algo sem importância em volume bem baixo. “Onde?”
“Você não lembra Arnaldo? Bom deixa pra lá...” Olha as unhas. “Vai fazer o quê hoje?”
“Nada, trabalhar... O de sempre. Mais tarde vou ao banco” O silêncio dura dez minutos.
“Amanhã minha mãe quer que a gente a leve naquele restaurante” Diz ele dando um gole no café já frio.
“Que restaurante, Arnaldo?” A mulher replica sem olhar pro marido.
“Odete, como que restaurante, aquele que a gente se conheçeu... Fantasiando um segredo no ponto onde quer chegar...” Cantarola ele, baixinho.
“Ai Arnaldo, aquela pocilga... Bah, vamos então. Mas eu vou levar o meu próprio papel higiênico. Os de lá são tão finos que molham meus dedos” Diz a mulher levemente contrariada.
“Tá bom.” Responde o homem fazendo cara que estava pensando em algo diferente “Mas e aquele dia, fez um sol de matar, era um sábado... Né, Odete?”
“Ahn?” Após a indagação dela, um novo silêncio, agora de quinze minutos.
“Vai fritar bifes ou façamos o frango assado?”
“Não sei, tu que sabes.” Agora ela está olhando uma revista velha, sentada a mesa. “Melhor algo rápido, mais tarde tenho uma reunião com o João.”
“Bifes então.” Responde automaticamente
“Os seus pais continuam os mesmos, não é Arnaldo?” Diz ela em tom de sarcasmo.
“Sei lá...” Responde, trocando de canal na tevê “Jogão de bola, Palmeiras e Corinthians. Uma vez fomos em um jogo de futebol. Lembra Odete? Você se divertiu horrores. E o Benedito foi junto com a gente. Lembra? ” Diz sorrindo “Você estava toda vaporosa, causando a confusão entre os homens... Ah, estava linda!”
“Benedito morreu, né?” Diz ela seca, sem pesar.
“Morreu, câncer” Responde o homem olhando para os botões do controle remoto.
“Vou fritar os bifes, então” Diz a mulher levantanto-se ligeiramente da cadeira.
Arnaldo se apruma no sofá e afofa uma almofada.
“Ei, Odete, já que estamos aqui sem fazer nada... quer relembrar os velhos tempos do banco de trás do meu opala?” Diz Arnaldo gritando para a mulher na cozinha.
“Ai velho, vai tomar banho. Piadinha agora não. Podia pegar uma vassoura e varrer aquele quintal cheio de merda de cachorro.” Grita a mulher de volta, batendo umas panelas.
“Há, Odete, você é mesmo um máximo. Não muda nunca.” Disse engolindo seco alguma coisa que havia se formado em sua garganta.
Após alguns minutos de tevê quase muda a mulher chega de volta a sala:
“Hoje eu chego tarde, viu?” Disse ela, sem dar importância.
“Eu também” Disse, também sem se importar muito. “Vou ao clube, dominó das quartas-feiras”
“Ahn...” Arrumando o busto no vestido.
“A casa está muito vazia sem os meninos aqui” Diz ele “vamos para um lugar menor?”
“O Albertinho vez em quando ta por aqui, precisamos desse quarto extra” Diz a mulher ajeitando as sobrancelhas olhando em um espelhinho que acabara de tirar da bolsa
“E quando começamos. Lembra? Eramos eu, você em apartamento pequeno. Pintei a casa toda. Lixei os batentes. Enceramos os tacos com cera de carnaúba e colacamos um antúrio na janela” Diz Arnaldo, passando a mão nos cabelos e olhando em um ponto fixo que parecia estar no passado.
“É verdade” Diz a mulher estalando a boca após passar um batom cor marrom “Estou bonita?”
“Claro” Diz Arnaldo.
“Que acha desse meu novo vestido?” Diz despretenciosa.
“É novo? Bonito” Indaga Arnaldo curioso. Na verdade estava sendo educado.
“Os bifes estão na panela, estou de saída...” Diz pegando a bolsa.
“Tá bom” Arnaldo responde quase ao mesmo tempo que Odete.
“Quando eu voltar eu como alguma coisa, se estiver com fome” Diz a mulher.
“Sim” Automaticamente.
Odete beija Arnaldo na fronte.
“Tchau velho”
“Tchau, mulher” diz olhando novamente pra tevê. “Te amo” murmura Arnaldo, bem baixo, depois de Odete já ter batido a porta forte.


Bete balanço by Cazuza on Grooveshark

segunda-feira, março 26, 2012

Natureza Morta

"De homem a homem verdadeiro, o caminho passa pelo homem louco."

Michel Foucault


Uma aranha estaticamente parada em uma folha orvalhada esperava sua presa e a formiga apenas subia a caminho de sua morada. Um homem caminhava na rua em direção ao posto de gasolina, em busca de uma loja de conveniências, que lhe vendesse cigarros as 11:14 da noite, pois sofria de insônia, pensando no trabalho, no relatório, no artigo, na produtividade, na ulcera péptica. A formiga subia, a aranha esperava. O homem se embrenhou rapidamente por entre as ruas escuras, com os olhos arregalados, vigilante. A formiga mal sabia do enorme perigo que lhe esperava bem a frente: a aranha predadora quieta e impávida, calma e irresoluta que apenas aguardava. A formiga apenas fazia o que tinha que fazer. Roendo as unhas o homem apressou o passo, parecia estar sendo seguido, coçou a cabeça freneticamente até sentir um filete quente de sangue escorrer‑lhe pela nuca. Um cheiro de ferro entrou-lhe pelas narinas quando ele tentou retirar os restos de pele debaixo das unhas enegrecidas. A aranha estava perfeitamente estática e sabia que a formiga, guiando-se por rastros químicos passaria por ali, ou não, porém independente das reais razões que a levaram até ali isso não muda o rumo das coisas. Enquanto isso a formiga, o ser andante, que nunca levanta a cabeça e sempre anda em direção sabe-se lá para onde, carregando um fardo muitas vezes mais pesado que o seu próprio corpo, para um bem maior e coletivo - alimentar os seus – nada queria, nada ansiava, nada temia, apenas andava. Compulsivamente e ciclicamente o homem pensava “esse porra não chega!” e apressou o passo quando ouviu um ronco alto de um motor de moto aproximando nas suas costas, aparentemente em alta velocidade. Existem certos momentos na vida que a gente se depara com uma clareza tão absurda que é até bonito, e um homem em busca de cigarros às 11:14 está longe disso. A aranha nem faz idéia, mas a formiga esta cada vez mais perto e perto, subindo e perscrutando os sulcos da folha, gerando uma vibração quase imperceptível, porém estrondosa para o sentido aguçado do aracnídeo. A moto estrondosa passa escandalosamente pela rua e ensurdesse os sentidos do homem - o coração vai na garganta. Se ao menos tivesse um cigarro. O medo gelava sua espinha, esmagava a sua alma. O suor fazia a sua roupa grudar no corpo e exalar um cheiro azedo, de animal acuado. A formiga não tinha medo, como poderia, não era dotada de um lobo temporal altamente desenvolvido. Entrou na conveniência “me dá um cigarro”. “Qual?” “Qualquer um” “Marlboro, Derby...?” “Qualquer um, você é surda?”. Pegou o cigarro “ Fica com o troco”. Desesperadamente tentava abrir o maço de cigarros com a mão trêmula e molhada de suor utilizando-se de esforço sobre-humano para retirar aquele maldito plástico protetor superior. Meteu a mão nos bolsos. Sem fósforos. SEM FÓSFOROS! Entrou de novo na conveniência engolindo seco a vergonha em nome de uma tragada – vício, palavra crua. Saiu de cabeça baixa e passo apressado, riscando o fósforo que acabara de comprar. Ao olhar pra trás viu o frentista entrar na conveniência e cochichar com a atendente, deviam estar falando dele, só podiam estar falando dele. Será que o frentista viria tirar satisfação? Pensou em uma resposta rápida, depois pensou na rota de fuga mais próxima, quando menos percebeu sua mão já estava pronta para um soco, se solicitada, dentro de seu bolso. Enquanto isso, a aranha estimulava suas glândulas e sistemas e afins. O homem continuou andando, suando frio. A formiga andando, andando, andando, andando. Este é o passo limítrofe que divide as situações reversíveis das coisas que não podemos mais reverter. A aranha sentiu a formiga com suas patas agarrou-a e rapidamente envolveu-a com sua teia. A formiga tentou lutar mas foi como deveria ser. A formiga foi devorada e digerida lentamente pela aranha que satisfez sua necessidade basal de sobrevivência. O homem voltou pra casa e fumou o seu cigarro. Tudo estava em equilíbrio, novamente.


Non, Je Ne Regrette Rien by Edith Piaf on Grooveshark

sexta-feira, maio 14, 2010

Demonstrações Grotescas de Afeto

Dormiu. Sonhou com coisas idílicas, lindas e leves. Conversas num pé de morro verde. Com casinhas de interior. Com mãos dadas e olhares cúmplices.
Acordou. O inferno era lá. Descontentou-se com meras bobagens. Distraiu-se do ponto de foco. Brigou e amargurou.
Dormiu. Sonhou que estava lá, ao seu lado. Na beira de uma piscina. Tomando um sorvete que tinha um gosto estranho. Os sorrisos pairavam no ar. Correram para o infinito.
Acordou. Sentiu-se sujo, usado, descartado. Vil, malvado. Machucado. Angustiou uma volta de que, inconscientemente, sabia de cor-e-salteado o desfecho. Esperou em Deus, em Alá... em qualquer coisa que lhe trouxesse paz.
Dormiu. Novamente estava lá. E nada do seu dia fazia mais sentido. Só estar ali significava. Dessa vez o cenário – que de fato era o que menos importava – era uma estrada com marquise que ele bem conhecia. As mãos estavam dadas ainda. E mais risos. E um breve “te amo” entre os lábios.
Acordou. E tudo continuava a ser como antes. O fingimento veio a tona. Sorriu de canto de boca. Chorou.
Dormiu de novo. E dessa vez estava sentado numa nuvem. Grande e fofa. “O que passa na sua cabeça quando escreve, se eu soubesse te entenderia melhor”.
“Eu não sei, meu bem, eu não sei”
Foi acordado pelo despertador alvoroçado. Desligou-o. A saudade o fazia suar frio. E aquele sentimento de culpa, culpado, c-u-l-p-a-d-o. Que sentimento infeliz de querer voltar a dormir a qualquer custo e retomar do ponto onde estava. Exatamente do ponto em que se perderam.
Dormiu novamente. E dessa vez procurou-a em todos os recônditos de sua mente, que era toda coração agora. Ouviu-lhe só a voz dizendo coisas que não formavam sentido, mas era doce e bela. Procurou mais um pouco. Sentou. Chorou e percebeu que o choro sonhado dói mais que o consciente, por que a lágrima não arrefece, tampouco acalanta a dor. É só o nó na garganta e desespero. Quis acordar mais que tudo na vida. Ainda permaneceu sonhando e viu um vulto vagando levemente com uma saia rodada e cabelos ao vento.
Acordou. Recebeu conselhos. Uns frios, outros duros, outros menos duros e otimistas. Mas nada fazia sentido. Não queria ser aquele tipo de homem. Queria querê-la, pois mesmo que o matasse, o vivia. Dava-lhe vida.
Dormiu. E compôs num misto de sentimentos outra realidade. Onde ele não espera que as portas abram ela entre, que um carro pare em frente à sua casa. Que seja surpreendido num domingo de manhã. Nem numa sexta-feira à noite. Onde os telefones realmente não tocam, nem ninguém se faz presente, só passado. Alto lá: estava dormindo ou estava acordado. Nem sabia mais. Que desatino.
E na sua alma esperava apenas ouvir algo que não era vaidade, nem ego. Só a pureza de um enleio, que dura um átimo de tempo infinito e ninguém conhece sua natureza, ninguém a prende, nem a armazena. A pureza de um som que vem de dentro e reverbera na face. A pureza de um olhar que nada teme, e que despreza o mal. A pureza que poucas vezes percebemos ou nos damos conta. Por vezes até a descartamos, julgando-a infanti ou impúbere. Essa pureza imaterial que alguns tolos, apesar de desconhecer todos os mistérios, ousaram chamar de amor.

sábado, outubro 18, 2008

Sobre o Amor e Outras Coisas

“As famílias felizes parecem-se todas;
as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”
Tolstoi, Leon


“E quanto ao menino, que faremos?”. Ele estava distraído brincando no chão de cimento queimado enquanto os dois planejavam o seu destino. De maneira alheia ao seu próprio e incerto futuro brincava e cantarolava baixinho sem abrir a boca, só deixando fluir pela caixa torácica alguns sons que reverberavam pelo seu ser e deixavam no ar uma melodia oca, que lembrava uma música de Elvis. “À merda você, com seus imprevistos, e suas desculpas!”, gritava a mulher do lado de dentro da casa. Pouco sabia do mote da discussão e as poucas palavras que chegavam a seu ouvido eram como poeiras, iguais às poeiras do chão, que vinham das terras secas de um jardim mal cuidado e com rosas murchas e mortas. Tampouco podia fazer algo a respeito, nem se atreveria a tanto, visto que da ultima vez fatídica em que se fez interar do assunto foi surrado de cinta e haveria de se lembrar disso o resto de sua vida. Nas vezes em que havia paz na casa sentia-se um menino normal, com trejeitos normais pra um menino de sete anos, e quase foi feliz nessa época. Desde muito cedo associava felicidade com momentos, curtos, efêmeros, saborosos, como pedaços de abacaxi ácidos em uma farofa tropical. Essa associação de felicidade a momentos esparsos não foi suficiente para lhe tirar a alegria de viver, que desde muito cedo entendeu também que era própria das crianças e que viria a perdê-la, cedo ou tarde, por enfastio e morosidades afins. Mas, além disso, pensava pouco no dia inevitável, aquele dia que poucos conseguem marcar num calendário. Quando se percebe já foi e não há nada que se possa fazer a respeito; um dia tornar-se-ia um adulto por alguma dor ou desgosto, ou puro convencionalismo mesmo – Não se pode ser criança para sempre. O homem do lado de dentro da casa estava muito nervoso a respeito, ou despeito, de assuntos que a mulher pugnava exigindo respostas. Não havia vagabundas, nem prostíbulos, tampouco outra mulher e filhos. Falácias. E o menino a brincar, no meio de tanta merda e sujeira. E diante de tais impropérios crescia uma consciência juvenil precoce. Um amadurecimento forçado. Estavam-no enrolando em um jornal como uma fruta verde, e esse calor de matar sufocava qualquer resistência de uma infância seqüenciada. Nascer, crescer, reproduzir, morrer. Enfim, a quarta parada estava longe e ele queria dormir e não acordar mais.
Lembrava quando seu pai lhe dava castanhas de lata para mastigar enquanto o velho homem bebericava alguma coisa, quase sempre uma cerveja. Porém, nunca associara até a idade adulta o álcool com atitudes violentas e marginalizáveis. Sempre achou normal esse comportamento dos mais velhos e, certas feitas em que ainda havia festas na casa, que depois de algum tempo cessaram por completo e cerraram a casa num denso ar de luto sem defunto, até bebeu goles de cerveja, imprudentemente, pegando os copos com atos furtivos da mesa em que os adultos estavam jogando canastra. Não entendia por que sua tia, irmã de sua mãe, implicava tanto com o fato de existirem bebidas na casa. Foi mais ou menos nessa idade que o menino viveu suas aventuras mais insólitas, que custavam a tornar-se realidade longe das paredes descascadas e carcomidas de sua casa velha com telhas de barro e piso de tacos salteados. As aventuras, que por volta de seus trinta anos iria lembrar-se e custar a acreditar, em sua mente eram-lhe tão reais.
De fato crianças têm imaginação fecunda para situações como essa, mas excetuando-se a feita em que lhe deram uma chavinha dourada dizendo que se tratava de uma peça rara e que existia um baú de tesouro que encaixaria perfeitamente a ela dando-lhe acesso a um mundo de riquezas, poucas vezes ornamentava ou dava floreios aos pensamentos imberbes e juvenis. Tanto mais pelo fato de seus irmãos prontamente desmentirem a história de tesouros e afins, assim que sua mãe virava as costas. Um estado quebradiço e uma consternação vinham à tona toda vez que se percebia enganado. Ficava dias sorrindo como se seu sorriso não encaixasse nas expressões vazias de seus olhos. Depois disso custaria a acreditar de novo em coisas fantasiosas, porém nas insólitas era impossível não acreditar, pois se tratava de algo além de sua imaginação, além de seu reconhecimento mundano e de falsa segurança que tinha em seu lar. Muitas vezes, por ocasiões diversas, pulavam pessoas em seu quintal. Mas um certo dia um momento de horror foi introduzido na casa por um ser até então desconhecido. A avó sempre lhe alertava a respeito de sacis e seres da floresta, porém nunca lhe deu crédito algum. Estava bem vedado contra crendices, e as situações inusitadas escolhem exatamente estas ocasiões de descrença para desbancar nossa certeza de todas as coisas. Foi no fim de uma festa, com muita cerveja, e muita carne de vaca, e costela. Os ossos jogados para o cachorro tornavam-se um deleite nos dentes afiados dele, porém o tornava uma arma em potencial, pronto para ferir a quem passasse perto. À noitinha, todos já haviam saído e o céu estava límpido e gelado. E a mulher pôs logo suas crias pra dentro e começou a fechar a casa, com presteza e cantarolando como sempre fazia e que posteriormente o menino também o faria após contrair o hábito. De repente ouviu-se um barulho seco, um estrépito, de madeira sendo golpeada e todos se sobressaltaram, e o barulho intensificou. O cachorro enfiou-se em seu covil e o ser que açoitava o portão de madeira urrava. Ninguém acreditava naquilo como situação real, mas era possível sentir um cheiro de animal passando pelas frestas do portão, um cheiro de animal grande e raivoso, e era quase possível ver os pelos eriçados em seu pescoço e sentir o calor de seu corpo colossal. A mãe após uns e outros gritos de loucura acolheu seus filhos embaixo da asa como pintinhos. E o barulho persistiu, persistiu, persistiu e cessou. Misteriosamente cessou, da mesma forma que veio. E todos ficaram abraçados muito juntos, muito pertos, muito calorosamente unidos, e podia até se ver um meio sorriso na face angelical do menino, quando o ser supostamente se foi.
Os barulhos cessaram também dentro da casa agora que o menino resolvera levantar do chão de cimento queimado para beber um copo d’água. E o cenário dentro de sua sala e cozinha era de destruição, e cadeira quebradas e um vidro estilhaçado, provavelmente de um copo ou jarra de suco. Um prato, com resquícios de arroz e farinha e salada e vinagre, estava estranhamente agrupado no chão e o menino driblou e pulou todos obstáculos. Puxou uma cadeira e pôs no pé do armário da cozinha, subiu nela. Abriu a porta mais acima e pegou um copo. Foi até o filtro e colocou um pouco de água. Bebeu tranqüilamente. Juntou os cacos e ajeitou as cadeiras no lugar, tudo como deveria ser. Puxou a toalha da mesa e colocou o vaso com flores de plástico que estava por uma casualidade do destino embaixo da pia agora. E tentou ajeitar as coisas. Sentou-se na escada que dava acesso ao quintal dos fundos e viu os dois se abraçando, silenciosamente, como se uma nuvem os entrelaçasse e nada pudesse atingi-los. Cruzou os braços e apoiou a cabeça nos joelhos e ficou tão indefinidamente ali quanto indefinidamente durou o abraço. Após alguns anos ele haveria de se lembrar o dia em que se tornara um adulto, forçadamente. Mas a imagem que marcou mais profundamente sua alma, após tantos amores enviesados, foi o abraço dos pais no quintal dos fundos naquele dia de calor, pois sabia que em toda sua jornada talvez não encontrasse um amor daqueles.


Ray Charles - Georgia On My Mind

terça-feira, agosto 26, 2008

Nua, Crua e sem Sal

Pois estavam as duas ali, como que rodeando o homem deitado naquela maca de metal gélido e reluzente. Estavam uma de cada lado, entreolhando-se, com um certo quê de controle da situação. Afinal o homem estava morto e não havia chance dele, que jazia impávido, ser o comando das rédeas daquele teatro bizarro que se desenrolaria. Uma das mulheres estava ao lado direito, olhando por sobre o tórax do defunto, coberto com aqueles lençóis verdes de funerária, e a outra, ao lado esquerdo, estava com certa vergonha de encará-lo. Estava montado o espetáculo.
Uma delas se chamava Gilda e tinha lindos traços latinos, bonitas mãos expressivas e um corpo esguio, daqueles que escorregam nas mãos de um homem e o levam a loucura. A outra se chamava Antônia, uma senhora de meia idade que só trabalhava na maldita funerária, pois o imprestável do seu marido preferia ficar embebedando-se o dia inteiro, com seus comparsas, na maioria velhos aposentados e solteirões que nada tinham pra fazer o dia inteiro. Como se não bastasse o desgraçado ainda chegava fedendo a bar, deitava-se de sapato na cama, e roncava. Roncava feito um porco. Antônia até havia se esquecido o que era sexo e com um marido nojento desses tornava-se óbvio o motivo. Às vezes, em silêncio, naquelas sextas-feiras, em que o traste demorava um pouco mais indo atrás de prostitutas, ela abraçava seu travesseiro e metia a mão entre as pernas, num prazer tão lânguido quanto solitário. Tão solitário. Depois chorava meia hora sem parar e dormia feito uma pedra.
Gilda trabalhava lá por necessidade. Porém uma necessidade diferente. As necessidades dos mais jovens são sempre diferentes. Eles trabalham por um tempo, por uma grana, pra comprar um carro, pra comprar um tênis bom, pra se vestir na moda e no final todos sabemos, inclusive eles mesmos sabem, que isso tudo é só por uma trepada. Uma trepada boa, numa cama qualquer, num motel vagabundo ou não. Apenas uma trepada. E Gilda não era diferente, era jovem, e queria apenas um bico, um degrau para galgar a subida até seus maiores objetivos. Aqueles que, singelamente, chamamos de sonhos.
Os sonhos, à medida que os anos passam, se tornam opacos como vidro embaçado. Antônia e Gilda eram dois lados, diametralmente opostos, de um cenário, de um fractal de vida.
O homem quase esquecido nesta história continuava morto e jazia ainda na maca, que continuava gélida e metálica. Este homem um dia se chamou Claudemir. Agora era só carne putrefata e mal-cheirosa, que seria banqueteada por vermes em algumas horas. Mas o Sr.Claudemir, ou “seu Claudemir” como era chamado na sua empresa, era um bonachão quando em vida. Este galgou alguns degraus e buscou, com sua flanela em mãos, alguns sonhos. Realizou poucos. Mandar as filhas pro exterior para estudar. Comprar uma luva de Mohamed Ali. Fazer o Caminho de Santiago. Puro clichê de sociedade moderna. Mas sentia-se contente. Contentou-se com isso e o faz parecer até o presente momento, já que exibe ainda um meio sorriso no rosto, como se estivesse rindo-se. Rindo-se da sua condição mortificante.
O seu Claudemir tem um problema, e não é cardíaco. O problema cardíaco ele não tem mais, visto que está morto. Ele não morreu por suas artérias entupidas, morreu enforcado, pela própria gravata que enroscou num exaustor de sua fábrica. Ficou em pé sete horas até encontrarem seu corpo preso pela gravata e com um meio riso na boca.
Mas insisto em dizer que o Sr. Claudemir tem um problema. Uma irônica ereção post-mortem. Dizem que existem casos que o “dito-cujo” fica em posição de ataque, apontando pro norte, após a morte. Mas são poucos casos. Seria daí o motivo do risinho maroto? Não se sabe, nem nunca se saberá. Sabemos apenas que é uma grande ironia morrer enforcado sem saber que suas artérias estavam entupidas e que seu coração pararia num dia desses qualquer, e, além disso, ter “disposição” pra ficar de pau duro. Isso que é tesão pela vida, ou pela morte, sei lá.
Porém o problema em si não era a ereção. Se notarmos a cara de espanto de Gilda e os lábios mordidos de Antônia, quando levantaram o lençol do morto veremos que o problema será fechar o caixão. Gilda pergunta o que fazer, com aquilo, tão... Tão... Você sabe... Robusto. Antônia diz que eram normais aqueles casos, mas não um tão... Tão... É... Você sabe... Encorpado. E Gilda ainda disse que não sabia que os gordinhos podiam ser tão... Tão... É... Como se diz... Altivos. Gilda ficou pensando e decidiu, apesar de achar desperdício, que era melhor cortar. E Antônia decidiu que era melhor quebrar. Era só sangue coagulado mesmo. Sangue que percorreu quilômetros e quilômetros por suas veias durante sua vida. Sangue que deu combustível necessário para agüentar três mulheres, quatro traições, dezesseis processos trabalhistas, incontáveis porres. Sangue que agora estava ali, coagulado, em riste.
Antônia pôs a mão e tentou disfarçar seu tremor, apesar da condição gelada do “corpo”, a segurá-lo com força. Crispou a boca, fez força, fez simbolicamente um ato de libertação. O barulho seco que se ouviu decretava a queda do guerreiro. Gilda arfou como que cansada apesar de ter apenas olhado. Cobriram-no com o lençol. Antônia passou a mão no rosto esverdeado do cadáver e falou algo como “não deveria estar sorrindo agora, meu bem”. Gilda acabou com os encargos, limpou-lhe bem, o deixou impecável. Vestiu-lhe o seu melhor terno azul-marinho. Partiu dessa pruma melhor em grande estilo. O dia de serviço acabou e ao sair, antes de apagar a luz, Gilda olhou-o uma ultima vez. “Agora podemos fechar o seu caixão” disse rindo consigo mesma, e foi embora. Elegante saída de um encontro. Apesar do pôr do sol, Claudemir permaneceu sorrindo até o ponto final, e Gilda e Antônia decidiram tomar uma cerveja no bar da esquina. Afinal, a vida não pára.


 the who - Love Reing O'er Me
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