segunda-feira, fevereiro 04, 2013
segunda-feira, março 26, 2012
Natureza Morta
"De homem a homem verdadeiro, o caminho passa pelo homem louco."
Michel Foucault
Uma aranha estaticamente parada em uma folha orvalhada esperava sua presa e a formiga apenas subia a caminho de sua morada. Um homem caminhava na rua em direção ao posto de gasolina, em busca de uma loja de conveniências, que lhe vendesse cigarros as 11:14 da noite, pois sofria de insônia, pensando no trabalho, no relatório, no artigo, na produtividade, na ulcera péptica. A formiga subia, a aranha esperava. O homem se embrenhou rapidamente por entre as ruas escuras, com os olhos arregalados, vigilante. A formiga mal sabia do enorme perigo que lhe esperava bem a frente: a aranha predadora quieta e impávida, calma e irresoluta que apenas aguardava. A formiga apenas fazia o que tinha que fazer. Roendo as unhas o homem apressou o passo, parecia estar sendo seguido, coçou a cabeça freneticamente até sentir um filete quente de sangue escorrer‑lhe pela nuca. Um cheiro de ferro entrou-lhe pelas narinas quando ele tentou retirar os restos de pele debaixo das unhas enegrecidas. A aranha estava perfeitamente estática e sabia que a formiga, guiando-se por rastros químicos passaria por ali, ou não, porém independente das reais razões que a levaram até ali isso não muda o rumo das coisas. Enquanto isso a formiga, o ser andante, que nunca levanta a cabeça e sempre anda em direção sabe-se lá para onde, carregando um fardo muitas vezes mais pesado que o seu próprio corpo, para um bem maior e coletivo - alimentar os seus – nada queria, nada ansiava, nada temia, apenas andava. Compulsivamente e ciclicamente o homem pensava “esse porra não chega!” e apressou o passo quando ouviu um ronco alto de um motor de moto aproximando nas suas costas, aparentemente em alta velocidade. Existem certos momentos na vida que a gente se depara com uma clareza tão absurda que é até bonito, e um homem em busca de cigarros às 11:14 está longe disso. A aranha nem faz idéia, mas a formiga esta cada vez mais perto e perto, subindo e perscrutando os sulcos da folha, gerando uma vibração quase imperceptível, porém estrondosa para o sentido aguçado do aracnídeo. A moto estrondosa passa escandalosamente pela rua e ensurdesse os sentidos do homem - o coração vai na garganta. Se ao menos tivesse um cigarro. O medo gelava sua espinha, esmagava a sua alma. O suor fazia a sua roupa grudar no corpo e exalar um cheiro azedo, de animal acuado. A formiga não tinha medo, como poderia, não era dotada de um lobo temporal altamente desenvolvido. Entrou na conveniência “me dá um cigarro”. “Qual?” “Qualquer um” “Marlboro, Derby...?” “Qualquer um, você é surda?”. Pegou o cigarro “ Fica com o troco”. Desesperadamente tentava abrir o maço de cigarros com a mão trêmula e molhada de suor utilizando-se de esforço sobre-humano para retirar aquele maldito plástico protetor superior. Meteu a mão nos bolsos. Sem fósforos. SEM FÓSFOROS! Entrou de novo na conveniência engolindo seco a vergonha em nome de uma tragada – vício, palavra crua. Saiu de cabeça baixa e passo apressado, riscando o fósforo que acabara de comprar. Ao olhar pra trás viu o frentista entrar na conveniência e cochichar com a atendente, deviam estar falando dele, só podiam estar falando dele. Será que o frentista viria tirar satisfação? Pensou em uma resposta rápida, depois pensou na rota de fuga mais próxima, quando menos percebeu sua mão já estava pronta para um soco, se solicitada, dentro de seu bolso. Enquanto isso, a aranha estimulava suas glândulas e sistemas e afins. O homem continuou andando, suando frio. A formiga andando, andando, andando, andando. Este é o passo limítrofe que divide as situações reversíveis das coisas que não podemos mais reverter. A aranha sentiu a formiga com suas patas agarrou-a e rapidamente envolveu-a com sua teia. A formiga tentou lutar mas foi como deveria ser. A formiga foi devorada e digerida lentamente pela aranha que satisfez sua necessidade basal de sobrevivência. O homem voltou pra casa e fumou o seu cigarro. Tudo estava em equilíbrio, novamente.
sexta-feira, março 23, 2012
Me de a mão e podemos ir para lua
“Há um tempo em que é
preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e
esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo
da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem
de nós mesmos.”
- Fernando Pessoa
Naquele dia escuro de quinta-feira tudo parecia diferente, mas na verdade as coisas eram iguais. As coisas eram iguais, vejam bem, as coisas. Por que por num instante as coisas podem ser iguais, o computador batendo as teclas e fazendo o som moroso, as pessoas indo e vindo, o farfalhar do lápis no papel, o som do ar condicionado, e lá fora o som do ensurdecedor do silêncio batendo na folhagem, que balaçava novamente, em paz. Tudo igual. Mas por dentro, processos interiores não são lineares, não seguiam regras fixas e não o obedeciam naquele dia. A perseguição por algo que ele nem sabia o que era, atropelou na estrada e deixou desfigurado no chão, seguindo sem rumo achando que iria escapar impune, havia chegado ao fim. E quando olhou para trás viu rostos muito estranhamente familiares, como num filme antigo, em preto e branco, muitas vezes mudo. Ele não conseguia tocar, apenas ver. Estava distante e sabia que era o momento da travessia. Entretanto, tinha em mente ainda tantas coisas vivas e fervilhantes que pareciam ter acordado agora. E ainda sim podia saber que a vida, sabe-se lá por que, tem rumos esguios. As deliciosas lembranças que teve durante toda manhã ele saboreou feito criança, comendo fruta no pé. Rindo só. Mas foi só, por que os processo internos são internos, e assim foi. “Me de mão e podemos ir para lua” ele queria dizer - utopia. O porto de Palos era logo ali, e estava com o pé no seu próprio convés, virando a popa para onde sentia mais medo naquele momento. A vontade de dizer palavras que soassem como fortes abraços naquele momento era grande, mas naquele momento talvez falar não fosse mais necessário, e nem mais Demócrito, nem Leucípo, nem mais merda nenhuma. De repente, um sorriso valsou ar no fim da noite e ele foi feliz ali.
“Boa sorte amigos, apenas começamos”
sexta-feira, maio 14, 2010
Demonstrações Grotescas de Afeto
Dormiu. Sonhou com coisas idílicas, lindas e leves. Conversas num pé de morro verde. Com casinhas de interior. Com mãos dadas e olhares cúmplices.Acordou. O inferno era lá. Descontentou-se com meras bobagens. Distraiu-se do ponto de foco. Brigou e amargurou.
Dormiu. Sonhou que estava lá, ao seu lado. Na beira de uma piscina. Tomando um sorvete que tinha um gosto estranho. Os sorrisos pairavam no ar. Correram para o infinito.
Acordou. Sentiu-se sujo, usado, descartado. Vil, malvado. Machucado. Angustiou uma volta de que, inconscientemente, sabia de cor-e-salteado o desfecho. Esperou em Deus, em Alá... em qualquer coisa que lhe trouxesse paz.
Dormiu. Novamente estava lá. E nada do seu dia fazia mais sentido. Só estar ali significava. Dessa vez o cenário – que de fato era o que menos importava – era uma estrada com marquise que ele bem conhecia. As mãos estavam dadas ainda. E mais risos. E um breve “te amo” entre os lábios.
Acordou. E tudo continuava a ser como antes. O fingimento veio a tona. Sorriu de canto de boca. Chorou.
Dormiu de novo. E dessa vez estava sentado numa nuvem. Grande e fofa. “O que passa na sua cabeça quando escreve, se eu soubesse te entenderia melhor”.
“Eu não sei, meu bem, eu não sei”
Foi acordado pelo despertador alvoroçado. Desligou-o. A saudade o fazia suar frio. E aquele sentimento de culpa, culpado, c-u-l-p-a-d-o. Que sentimento infeliz de querer voltar a dormir a qualquer custo e retomar do ponto onde estava. Exatamente do ponto em que se perderam.
Dormiu novamente. E dessa vez procurou-a em todos os recônditos de sua mente, que era toda coração agora. Ouviu-lhe só a voz dizendo coisas que não formavam sentido, mas era doce e bela. Procurou mais um pouco. Sentou. Chorou e percebeu que o choro sonhado dói mais que o consciente, por que a lágrima não arrefece, tampouco acalanta a dor. É só o nó na garganta e desespero. Quis acordar mais que tudo na vida. Ainda permaneceu sonhando e viu um vulto vagando levemente com uma saia rodada e cabelos ao vento.
Acordou. Recebeu conselhos. Uns frios, outros duros, outros menos duros e otimistas. Mas nada fazia sentido. Não queria ser aquele tipo de homem. Queria querê-la, pois mesmo que o matasse, o vivia. Dava-lhe vida.
Dormiu. E compôs num misto de sentimentos outra realidade. Onde ele não espera que as portas abram ela entre, que um carro pare em frente à sua casa. Que seja surpreendido num domingo de manhã. Nem numa sexta-feira à noite. Onde os telefones realmente não tocam, nem ninguém se faz presente, só passado. Alto lá: estava dormindo ou estava acordado. Nem sabia mais. Que desatino.
E na sua alma esperava apenas ouvir algo que não era vaidade, nem ego. Só a pureza de um enleio, que dura um átimo de tempo infinito e ninguém conhece sua natureza, ninguém a prende, nem a armazena. A pureza de um som que vem de dentro e reverbera na face. A pureza de um olhar que nada teme, e que despreza o mal. A pureza que poucas vezes percebemos ou nos damos conta. Por vezes até a descartamos, julgando-a infanti ou impúbere. Essa pureza imaterial que alguns tolos, apesar de desconhecer todos os mistérios, ousaram chamar de amor.
quarta-feira, setembro 30, 2009
Selo Vermelho
A caixa vermelho carmim, com detalhes dourados
O homem andando sempre, pra não se sabe onde
Mas sempre andando
Destilada, misturada léxica e morfologicamente
E engarrafada na escócia
Onde homens de barba vermelha tocam
um instrumento monotônico e usam saias
Letras em alto relevo e minha face no chão molhado
Arenoso, da calçada.
Um brasão da dinastia, com cavalo e leão,
que aludem a um reino forte. Um homem fraco
No chão. Pensando. A garrafa seca.
Ódio e impunidade, impotência.
Falta completa de significado. Desconexão.
Desconjuro pé de pato mangalô três vezes.
Durmo. Sonho em andar, mais uma vez.
O homem andando sempre, pra não se sabe onde
Mas sempre andando
Destilada, misturada léxica e morfologicamente
E engarrafada na escócia
Onde homens de barba vermelha tocam
um instrumento monotônico e usam saias
Letras em alto relevo e minha face no chão molhado
Arenoso, da calçada.
Um brasão da dinastia, com cavalo e leão,
que aludem a um reino forte. Um homem fraco
No chão. Pensando. A garrafa seca.
Ódio e impunidade, impotência.
Falta completa de significado. Desconexão.
Desconjuro pé de pato mangalô três vezes.
Durmo. Sonho em andar, mais uma vez.
domingo, maio 10, 2009
Flores Neon
O ar gelado da madrugada tocava seu rosto, acariciando-o com seus dedos frios. O cheiro de natureza estava por ali, em algum lugar – Talvez apenas em sua mente. Um trago, um pensamento. Entre tantos caiu um que gritava, chorava, pedia. Pegou-o, esbofeteou-lhe e enfiou dentro de uma caixa escura. Um alegre girando estava de saia rodada colorida, e um laço de fita. Outro velho e acabado estava dizendo nostalgias, impropérios, e reclamando. Todos pareciam fazer parte de um todo desconexo. Um branco, voando, livre. Um azul, perdido. Um vermelho, mordendo os lábios de angústia, de luxúria.
Fazendo nada jus a uma noite vazia sua mente estava cheia, povoada. Um deles pulou e estrangulou-o, com força. Um carro passou e buzinou. Sua cara de espanto na sacada de seu apartamento era como uma profecia de culpa. E depois vieram dois mais, negros, lindos, como corvos. Que balançavam em um balanço sorrindo vaziamente. Um caiu e o outro voou numa brisa leve. O pandemônio continuou sobre chuva de sal, chuva de lágrimas, e impressionado ficou quando percebeu que seus sentimentos podiam interferir nessa reunião – feita com intuito de promover a desordem – e posteriormente, percebeu que seus sentimentos também eram pensamentos e ocupavam sua mente para dar-lhe o troco. Tomar controle. O seu desejo de identificação com a unidade, e com a criação, já era nulo. Apenas se entregou ao inevitável.
Em frente a sua casa brilhava uma flor em neon. Vermelha pulsante. Um letreiro de estrondosa beleza urbana. Apenas adormeceu com os murmúrios de seus demônios interior, desejando apenas não sentir-se despedaçado, rachado, amanhã.
sábado, outubro 18, 2008
Sobre o Amor e Outras Coisas
“As famílias felizes parecem-se todas;
as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”
Tolstoi, Leon
as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”
Tolstoi, Leon
“E quanto ao menino, que faremos?”. Ele estava distraído brincando no chão de cimento queimado enquanto os dois planejavam o seu destino. De maneira alheia ao seu próprio e incerto futuro brincava e cantarolava baixinho sem abrir a boca, só deixando fluir pela caixa torácica alguns sons que reverberavam pelo seu ser e deixavam no ar uma melodia oca, que lembrava uma música de Elvis. “À merda você, com seus imprevistos, e suas desculpas!”, gritava a mulher do lado de dentro da casa. Pouco sabia do mote da discussão e as poucas palavras que chegavam a seu ouvido eram como poeiras, iguais às poeiras do chão, que vinham das terras secas de um jardim mal cuidado e com rosas murchas e mortas. Tampouco podia fazer algo a respeito, nem se atreveria a tanto, visto que da ultima vez fatídica em que se fez interar do assunto foi surrado de cinta e haveria de se lembrar disso o resto de sua vida. Nas vezes em que havia paz na casa sentia-se um menino normal, com trejeitos normais pra um menino de sete anos, e quase foi feliz nessa época. Desde muito cedo associava felicidade com momentos, curtos, efêmeros, saborosos, como pedaços de abacaxi ácidos em uma farofa tropical. Essa associação de felicidade a momentos esparsos não foi suficiente para lhe tirar a alegria de viver, que desde muito cedo entendeu também que era própria das crianças e que viria a perdê-la, cedo ou tarde, por enfastio e morosidades afins. Mas, além disso, pensava pouco no dia inevitável, aquele dia que poucos conseguem marcar num calendário. Quando se percebe já foi e não há nada que se possa fazer a respeito; um dia tornar-se-ia um adulto por alguma dor ou desgosto, ou puro convencionalismo mesmo – Não se pode ser criança para sempre. O homem do lado de dentro da casa estava muito nervoso a respeito, ou despeito, de assuntos que a mulher pugnava exigindo respostas. Não havia vagabundas, nem prostíbulos, tampouco outra mulher e filhos. Falácias. E o menino a brincar, no meio de tanta merda e sujeira. E diante de tais impropérios crescia uma consciência juvenil precoce. Um amadurecimento forçado. Estavam-no enrolando em um jornal como uma fruta verde, e esse calor de matar sufocava qualquer resistência de uma infância seqüenciada. Nascer, crescer, reproduzir, morrer. Enfim, a quarta parada estava longe e ele queria dormir e não acordar mais.
Lembrava quando seu pai lhe dava castanhas de lata para mastigar enquanto o velho homem bebericava alguma coisa, quase sempre uma cerveja. Porém, nunca associara até a idade adulta o álcool com atitudes violentas e marginalizáveis. Sempre achou normal esse comportamento dos mais velhos e, certas feitas em que ainda havia festas na casa, que depois de algum tempo cessaram por completo e cerraram a casa num denso ar de luto sem defunto, até bebeu goles de cerveja, imprudentemente, pegando os copos com atos furtivos da mesa em que os adultos estavam jogando canastra. Não entendia por que sua tia, irmã de sua mãe, implicava tanto com o fato de existirem bebidas na casa. Foi mais ou menos nessa idade que o menino viveu suas aventuras mais insólitas, que custavam a tornar-se realidade longe das paredes descascadas e carcomidas de sua casa velha com telhas de barro e piso de tacos salteados. As aventuras, que por volta de seus trinta anos iria lembrar-se e custar a acreditar, em sua mente eram-lhe tão reais.
De fato crianças têm imaginação fecunda para situações como essa, mas excetuando-se a feita em que lhe deram uma chavinha dourada dizendo que se tratava de uma peça rara e que existia um baú de tesouro que encaixaria perfeitamente a ela dando-lhe acesso a um mundo de riquezas, poucas vezes ornamentava ou dava floreios aos pensamentos imberbes e juvenis. Tanto mais pelo fato de seus irmãos prontamente desmentirem a história de tesouros e afins, assim que sua mãe virava as costas. Um estado quebradiço e uma consternação vinham à tona toda vez que se percebia enganado. Ficava dias sorrindo como se seu sorriso não encaixasse nas expressões vazias de seus olhos. Depois disso custaria a acreditar de novo em coisas fantasiosas, porém nas insólitas era impossível não acreditar, pois se tratava de algo além de sua imaginação, além de seu reconhecimento mundano e de falsa segurança que tinha em seu lar. Muitas vezes, por ocasiões diversas, pulavam pessoas em seu quintal. Mas um certo dia um momento de horror foi introduzido na casa por um ser até então desconhecido. A avó sempre lhe alertava a respeito de sacis e seres da floresta, porém nunca lhe deu crédito algum. Estava bem vedado contra crendices, e as situações inusitadas escolhem exatamente estas ocasiões de descrença para desbancar nossa certeza de todas as coisas. Foi no fim de uma festa, com muita cerveja, e muita carne de vaca, e costela. Os ossos jogados para o cachorro tornavam-se um deleite nos dentes afiados dele, porém o tornava uma arma em potencial, pronto para ferir a quem passasse perto. À noitinha, todos já haviam saído e o céu estava límpido e gelado. E a mulher pôs logo suas crias pra dentro e começou a fechar a casa, com presteza e cantarolando como sempre fazia e que posteriormente o menino também o faria após contrair o hábito. De repente ouviu-se um barulho seco, um estrépito, de madeira sendo golpeada e todos se sobressaltaram, e o barulho intensificou. O cachorro enfiou-se em seu covil e o ser que açoitava o portão de madeira urrava. Ninguém acreditava naquilo como situação real, mas era possível sentir um cheiro de animal passando pelas frestas do portão, um cheiro de animal grande e raivoso, e era quase possível ver os pelos eriçados em seu pescoço e sentir o calor de seu corpo colossal. A mãe após uns e outros gritos de loucura acolheu seus filhos embaixo da asa como pintinhos. E o barulho persistiu, persistiu, persistiu e cessou. Misteriosamente cessou, da mesma forma que veio. E todos ficaram abraçados muito juntos, muito pertos, muito calorosamente unidos, e podia até se ver um meio sorriso na face angelical do menino, quando o ser supostamente se foi.
Os barulhos cessaram também dentro da casa agora que o menino resolvera levantar do chão de cimento queimado para beber um copo d’água. E o cenário dentro de sua sala e cozinha era de destruição, e cadeira quebradas e um vidro estilhaçado, provavelmente de um copo ou jarra de suco. Um prato, com resquícios de arroz e farinha e salada e vinagre, estava estranhamente agrupado no chão e o menino driblou e pulou todos obstáculos. Puxou uma cadeira e pôs no pé do armário da cozinha, subiu nela. Abriu a porta mais acima e pegou um copo. Foi até o filtro e colocou um pouco de água. Bebeu tranqüilamente. Juntou os cacos e ajeitou as cadeiras no lugar, tudo como deveria ser. Puxou a toalha da mesa e colocou o vaso com flores de plástico que estava por uma casualidade do destino embaixo da pia agora. E tentou ajeitar as coisas. Sentou-se na escada que dava acesso ao quintal dos fundos e viu os dois se abraçando, silenciosamente, como se uma nuvem os entrelaçasse e nada pudesse atingi-los. Cruzou os braços e apoiou a cabeça nos joelhos e ficou tão indefinidamente ali quanto indefinidamente durou o abraço. Após alguns anos ele haveria de se lembrar o dia em que se tornara um adulto, forçadamente. Mas a imagem que marcou mais profundamente sua alma, após tantos amores enviesados, foi o abraço dos pais no quintal dos fundos naquele dia de calor, pois sabia que em toda sua jornada talvez não encontrasse um amor daqueles.
Ray Charles - Georgia On My Mind
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