terça-feira, agosto 26, 2008

Nua, Crua e sem Sal

Pois estavam as duas ali, como que rodeando o homem deitado naquela maca de metal gélido e reluzente. Estavam uma de cada lado, entreolhando-se, com um certo quê de controle da situação. Afinal o homem estava morto e não havia chance dele, que jazia impávido, ser o comando das rédeas daquele teatro bizarro que se desenrolaria. Uma das mulheres estava ao lado direito, olhando por sobre o tórax do defunto, coberto com aqueles lençóis verdes de funerária, e a outra, ao lado esquerdo, estava com certa vergonha de encará-lo. Estava montado o espetáculo.
Uma delas se chamava Gilda e tinha lindos traços latinos, bonitas mãos expressivas e um corpo esguio, daqueles que escorregam nas mãos de um homem e o levam a loucura. A outra se chamava Antônia, uma senhora de meia idade que só trabalhava na maldita funerária, pois o imprestável do seu marido preferia ficar embebedando-se o dia inteiro, com seus comparsas, na maioria velhos aposentados e solteirões que nada tinham pra fazer o dia inteiro. Como se não bastasse o desgraçado ainda chegava fedendo a bar, deitava-se de sapato na cama, e roncava. Roncava feito um porco. Antônia até havia se esquecido o que era sexo e com um marido nojento desses tornava-se óbvio o motivo. Às vezes, em silêncio, naquelas sextas-feiras, em que o traste demorava um pouco mais indo atrás de prostitutas, ela abraçava seu travesseiro e metia a mão entre as pernas, num prazer tão lânguido quanto solitário. Tão solitário. Depois chorava meia hora sem parar e dormia feito uma pedra.
Gilda trabalhava lá por necessidade. Porém uma necessidade diferente. As necessidades dos mais jovens são sempre diferentes. Eles trabalham por um tempo, por uma grana, pra comprar um carro, pra comprar um tênis bom, pra se vestir na moda e no final todos sabemos, inclusive eles mesmos sabem, que isso tudo é só por uma trepada. Uma trepada boa, numa cama qualquer, num motel vagabundo ou não. Apenas uma trepada. E Gilda não era diferente, era jovem, e queria apenas um bico, um degrau para galgar a subida até seus maiores objetivos. Aqueles que, singelamente, chamamos de sonhos.
Os sonhos, à medida que os anos passam, se tornam opacos como vidro embaçado. Antônia e Gilda eram dois lados, diametralmente opostos, de um cenário, de um fractal de vida.
O homem quase esquecido nesta história continuava morto e jazia ainda na maca, que continuava gélida e metálica. Este homem um dia se chamou Claudemir. Agora era só carne putrefata e mal-cheirosa, que seria banqueteada por vermes em algumas horas. Mas o Sr.Claudemir, ou “seu Claudemir” como era chamado na sua empresa, era um bonachão quando em vida. Este galgou alguns degraus e buscou, com sua flanela em mãos, alguns sonhos. Realizou poucos. Mandar as filhas pro exterior para estudar. Comprar uma luva de Mohamed Ali. Fazer o Caminho de Santiago. Puro clichê de sociedade moderna. Mas sentia-se contente. Contentou-se com isso e o faz parecer até o presente momento, já que exibe ainda um meio sorriso no rosto, como se estivesse rindo-se. Rindo-se da sua condição mortificante.
O seu Claudemir tem um problema, e não é cardíaco. O problema cardíaco ele não tem mais, visto que está morto. Ele não morreu por suas artérias entupidas, morreu enforcado, pela própria gravata que enroscou num exaustor de sua fábrica. Ficou em pé sete horas até encontrarem seu corpo preso pela gravata e com um meio riso na boca.
Mas insisto em dizer que o Sr. Claudemir tem um problema. Uma irônica ereção post-mortem. Dizem que existem casos que o “dito-cujo” fica em posição de ataque, apontando pro norte, após a morte. Mas são poucos casos. Seria daí o motivo do risinho maroto? Não se sabe, nem nunca se saberá. Sabemos apenas que é uma grande ironia morrer enforcado sem saber que suas artérias estavam entupidas e que seu coração pararia num dia desses qualquer, e, além disso, ter “disposição” pra ficar de pau duro. Isso que é tesão pela vida, ou pela morte, sei lá.
Porém o problema em si não era a ereção. Se notarmos a cara de espanto de Gilda e os lábios mordidos de Antônia, quando levantaram o lençol do morto veremos que o problema será fechar o caixão. Gilda pergunta o que fazer, com aquilo, tão... Tão... Você sabe... Robusto. Antônia diz que eram normais aqueles casos, mas não um tão... Tão... É... Você sabe... Encorpado. E Gilda ainda disse que não sabia que os gordinhos podiam ser tão... Tão... É... Como se diz... Altivos. Gilda ficou pensando e decidiu, apesar de achar desperdício, que era melhor cortar. E Antônia decidiu que era melhor quebrar. Era só sangue coagulado mesmo. Sangue que percorreu quilômetros e quilômetros por suas veias durante sua vida. Sangue que deu combustível necessário para agüentar três mulheres, quatro traições, dezesseis processos trabalhistas, incontáveis porres. Sangue que agora estava ali, coagulado, em riste.
Antônia pôs a mão e tentou disfarçar seu tremor, apesar da condição gelada do “corpo”, a segurá-lo com força. Crispou a boca, fez força, fez simbolicamente um ato de libertação. O barulho seco que se ouviu decretava a queda do guerreiro. Gilda arfou como que cansada apesar de ter apenas olhado. Cobriram-no com o lençol. Antônia passou a mão no rosto esverdeado do cadáver e falou algo como “não deveria estar sorrindo agora, meu bem”. Gilda acabou com os encargos, limpou-lhe bem, o deixou impecável. Vestiu-lhe o seu melhor terno azul-marinho. Partiu dessa pruma melhor em grande estilo. O dia de serviço acabou e ao sair, antes de apagar a luz, Gilda olhou-o uma ultima vez. “Agora podemos fechar o seu caixão” disse rindo consigo mesma, e foi embora. Elegante saída de um encontro. Apesar do pôr do sol, Claudemir permaneceu sorrindo até o ponto final, e Gilda e Antônia decidiram tomar uma cerveja no bar da esquina. Afinal, a vida não pára.


 the who - Love Reing O'er Me

7 comentários:

Alchemist disse...

faz tempo q eu nao passo aqui...

nua crua e sem sal!

ja seus textos sao tipo comida baiana assim, sabe!? não exatamente apimenteda...temperada... se bem q eu nunca fui pra bahia...nem comi comida baiana...talvez, como bom paulista, uma pizza!

patty disse...

diferente, engraçado...

vc está evoluindo, pokemon! heehehehe

eu gostei do texto Ju, c sabe! =)
e meu, o final está sensacional! =D

Zé Junior disse...

Pokemon!?!?

Tá certo então.

Maira disse...

Pensei que elas ían ficar no final.
Pra ser sincéra, irian transar,alí mesmo.

Depois pensei que ele não estava morto, e que ía berrar quando 'quebrassen' seu 'dito cujo'. flsdjkgdfjgg
Viajei no texto.
E achei ÓTIMO atualização rápidaa!
rsrsrs!

saudades caraa!

bjO°


;*

Maira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
maah disse...

Juh, add meu blog akee?
O seu jáh estáh add láh nO meu.


beeeeeeeeeeeeijO!


beijomeliga-maah.blogspot.com

JPinhata disse...

Seu Miranda, passei por aqui e fiquei sem palavras...

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